O Jovem Adventista e o Cinema (Parte 1) – Filmes Bíblicos baseados ou “baseados”?

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Você já deve ter percebido a onda crescente de filmes baseados em histórias bíblicas ultimamente. Inclusive há quem diga que são filmes produzidos especialmente para os cristãos e que nos ajudam a vivenciar com maior realidade os fatos das histórias bíblicas. Mas será mesmo que nós, jovens adventistas, devemos recorrer a esse tipo de entretenimento para buscar maior conhecimento da Palavra de Deus? Ou assistimos apenas porque de todas as opções essa é a menos pior (dos males o menor alguém diria)? O texto de hoje tem como objetivo alertar nossos jovens para erro que talvez tenham cometido ao condescender com essas atitudes.  Desde já aviso que estamos abertos para um debate sadio sobre o assunto. Deixe seu comentário e sua opinião ao final do texto e boa leitura =)

Há algum tempo venho notando e acompanhando a crescente discussão sobre os lançamentos de filmes hollywoodianos com temática bíblica. E algumas coisas têm me deixado verdadeiramente preocupada a respeito de tal assunto. Como jovem adventista talvez eu nem devesse me pronunciar a respeito desse tema, afinal eu deveria estar junto com a maioria marcando encontros no cinema e assistindo aos tão esperados filmes bíblicos. Porém, não há como concordar com uma prática que claramente está em desacordo com os princípios encontrados na Palavra de Deus.

Lembro que antigamente as pessoas tinham certo receio, ou até mesmo um certo pudor, ao falar sobre cinema. Era tão claro que frequentar esse tipo de ambiente não era próprio para um cristão que as pessoas tinham vergonha de dizer que iam. A própria igreja com seus líderes e meios de comunicação alertavam abertamente seus membros para os perigos da influência do cinema. Hoje em dia, vejo uma inversão tremenda de valores e ideias a respeito disso. Inclusive o argumento máximo de alguns para corroborar com tal prática é dizer que a Bíblia não fala nada a respeito do cinema em si, e que na falta de um “Assim diz o Senhor” preferem optar pela consciência de cada um. Mas um fato a se notar sobre isso é que a Bíblia também não diz nada a respeito de maconha, crack, aborto, e tantas outras práticas nocivas que como cristãos condenamos veementemente.

Bom, não pretendo nesse post discorrer sobre frequentar o cinema. Isso faremos em outra ocasião com um estudo aprofundado e bem fundamentado sobre o tema. A minha real preocupação tem sido sobre a grande expectativa que vejo em nossos amigos sobre os recentes filmes “baseados” em histórias bíblicas. Fazendo uma breve análise histórica sobre isso veremos que filmes bíblicos não é nenhum tipo de inovação no mercado cinematográfico.  A indústria há décadas vem investindo nesse setor com obras como Ben-Hur, O Manto Sagrado e Os Dez Mandamentos, sendo que os dois primeiros se aproveitaram de fatos bíblicos para contar uma história paralela aos acontecimentos biblicamente narrados. É importante notar que mesmo naquela época a indústria já investia pesado na produção de seus filmes e, apesar de não chegar nem perto da tecnologia hoje disponível, aquilo era o supra sumo dos efeitos especiais.

Porém, o real interesse dos adventistas a respeito desses tipos de filmes surgiu com a obra dirigida por Mel Gibson, A Paixão de Cristo. Alguns até chegaram a dizer que seria impossível o diretor não ter lido O Desejado de Todas as Nações para retratar com tanta realidade o sofrimento de Cristo. Mas não me lembro de ter lido no inspirado livro sobre Maria encostando no chão para ouvir chorando os gritos de seu Filho ou bebês com caras de demônios. Não se pode negar que um filme filmado em aramaico, uma língua pouco falada ultimamente, é realmente de se chamar atenção. No entanto quando assisti ao filme fiquei em choque por ver tanto sangue, tantos gritos, tanto horror. Sinceramente, eu chorei sim ao pensar que eu poderia ter causado tudo aquilo Àquele que morreu por mim, mas foi um sentimento passageiro. E ao sair do cinema (porque sim, eu assisti lá) eu já havia esquecido totalmente o motivo pelo qual chorara e minha natureza pecaminosa novamente tomou conta de mim.

Tal fato me leva a questionar o real motivo de estarmos indo às grandes telas para ver a história bíblica. Será pela enorme curiosidade que temos de visualizar com mais realidade os fatos, ou será nossa ânsia por efeitos especiais, imagens em 3D e outros artifícios que fazem com que apenas a história lida na Bíblia se torne sem graça e ultrapassada? Sejam quais forem as escolhas de resposta à essa pergunta ouso dizer que as duas opções estariam erradas, pois demonstrariam apenas o quanto nossa decaída natureza anseia por mais do mundo e menos do divino.

Devemos ter sempre em mente os inspirados conselhos de Paulo em Filipenses 4:8, “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”. Se devemos pensar somente em coisas puras e boas, quanto mais ver e assistir coisas boas e puras.

Alguns até podem dizer “Mas Annik, eu estou filtrando os filmes bons. Tanto que esse é baseado numa história bíblica”. OK, mas será que Deus está realmente satisfeito com a forma como Sua história é retratada naquele filme?

Vejamos o a mensageira inspirada nos diz a respeito. “Estamos lidando com assuntos que envolvem interesses eternos, e não devemos em coisa alguma imitar o mundo. Temos que seguir de perto os passos de Cristo. Ele é aquilo que nos satisfaz e pode satisfazer todas as nossas carências e necessidades.” ( Manuscrito 96, 1898. Ev 139.3) Existem outros diversos textos que poderiam ser expostos aqui para complementar o pensamento e posso até indicar com prazer para quem se interessar em estudar o assunto depois.

Estamos sendo tão moldados pela cultura ao nosso redor que necessitamos de algo que satisfaça nosso desejo por algo mais atrativo nas narrativas bíblicas. Queremos visualizar o sangue, as lutas e as mortes tão constantes no Antigo Testamento juntamente com efeitos especiais e atores e atrizes famosos que o mundo adora representando nosso heróis e vilões bíblicos.

Porém, insisto em perguntar, será esse o caminho indicado para o jovem adventista? Será que não temos nós também adorado tanto o mundo cinematográfico e seus representantes? Quantos não gostariam de ver a bela e adorada Scarlett Johansson na pele da virtuosa Rainha Ester?

Temos sido um povo que professa amar a Deus, mas temos agido como o povo de Israel e seguido após nossos ídolos (Jeremias 2:5). O problema é que quando isso acontece acabamos assumindo a natureza daquilo que inconscientemente adoramos. E em vez das preciosas histórias nos ensinarem lições e formarem nosso caráter, elas apenas nos divertem.

Isso sem tirar o fato de que são produções idealizadas com um objetivo bem definido: comércio. Os filme bíblicos atuais (aliás nem os antigos) não são produzidos visando nosso crescimento espiritual ou algum outro propósito devocional, mas apenas almejam alcançar e cativar um seleto grupo de pessoas, até então arredias à essa espécie de entretenimento. Deveríamos nós nos juntar a esse tipo de iniciativa egoísta? Isso sem tirar o fato de que o dinheiro com que os ingressos são comprados dificilmente irão ajudar nas causas do avanço do evangelho como nossas ofertas, mas sim irão para bolsos de pessoas sem escrúpulos que farão mais filmes que vão de encontro aos princípios que pregamos.

Já ouvi argumentos de pessoas que me disseram que muitos outros foram levados a ler mais a Bíblia por causa dessas superproduções. Inclusive, em uma estatística do YouVersion, aplicativo de leitura da Bíblia mais utilizado, foi verificado um aumento de 300% no nível de leitura da mesma. Para alguns, isso por si só é o maior argumento de todos. Porém, vamos olhar por um ângulo diferente. Outros livros também ganharam uma maior visibilidade quando seus respectivos filmes estavam para serem lançados. Lembro que após ter assistido Harry Potter e a Pedra Filosofia fiz questão de ser leitora assídua do restante da série. Perdi as contas de quantas vezes li e reli cada volume, além de ter assistido a todos os filmes. Soma-se a isso outros filmes de sucesso baseados em famosas obras escritas como Crespúsculo, Jogos Vorazes, Divergente, A Culpa é das Estrelas e a mais recente (e talvez pornográfica de todas) Cinquenta Tons de Cinza. As pessoas, nem todas é verdade, buscam ler somente para não ficar por fora do que irá se passar e para verificar se o filme será ou foi fiel ao relato escrito. Não é uma real preocupação em saber que lição Deus quer lhes passar com aquilo. Óbvio que não se pode negar a obra do Espírito Santo, que até mesmo de obras injustas pode tirar bençãos. A Bíblia é prova disso. Porém, isso não que dizer que os fins justificam todos os meios.

Os que amam a vida social, frequentemente condescendem com esse traço até que ele se torna paixão dominante. Vestir, ir a lugares de entretenimento, rir e tagarelar sobre assuntos de modo geral mais levianos que a própria vaidade — eis o objetivo de sua vida. Não podem suportar ler a Bíblia e meditar nas coisas celestiais. Sentem-se infelizes, a menos que haja qualquer coisa fantasiosa.Não possuem em si mesmos o poder de ser felizes; mas dependem para isso da companhia dos outros jovens tão irrefletidos e irrequietos como eles mesmos. As energias que poderiam ser encaminhadas para nobres fins, eles as entregam à loucura.O jovem que encontra prazer e felicidade em ler a Palavra de Deus e na oração, é constantemente refrigerado pela Fonte da vida.” (Testemunhhos para a Igreja, vol.4, p. 624)

Portanto meus amigos, eu rogo para que repensem suas atitudes e decisões sobre dar sua atenção e seu dinheiro para esse tipo de divertimento. Não é um caminho seguro para jovens cristãos como nós. Não podemos ter a certeza de que anjos e o próprio Senhor compactuem com isso. E sem o sinete divino da aprovação de Deus todas as nossas ações não passarão de meros desejos egoístas. “Apelo aos jovens a considerarem seus caminhos e mudarem sua conduta antes que seja tarde demais.” (Ellen White)

Em tudo que fizermos possamos sempre procurar conhecer o parecer de Deus. Esse é nosso objetivo. Aos que discordarem estaremos dispostos a conversar e debater o assunto, sempre no espírito cristão de entendimento. Porém, precisamos saber e estar convictos de que mais vale obedecer a Deus do que aos homens, mesmo que os “homens”sejam nosso próprio “eu”.

“Não porei coisa má diante dos meus olhos.” (Salmo 101:3)

Antes de prosseguir, leia a parte 2