O Jovem Adventista e o Cinema (Parte 2) – Alguns princípios bíblicos

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Parte 1 AQUI

Confesso que demorei bastante tempo até decidir expor tão publicamente assim meus pensamento e reflexões sobre o cinema. Não pensem que é fácil para mim, vir aqui e me colocar contra uma espécie de divertimento que durante muitos anos fez parte da minha vida e tomou boa parte do meu tempo. Mas, graças ao conhecimento de Cristo e ação do Espírito Santo em mim pude parar de fazer minha própria vontade e me propus de uma vez por todas a tentar seguir os caminhos de Deus. Também não pensem que foi fácil. Não foi, não é e, talvez, por um bom tempo não seja. Talvez nunca seja. Não foi de uma hora para a outra que parei de ir. Foi preciso muito estudo, muita oração, estudo, mais oração, e por fim fui convencida de que estava errada. Ninguém me convenceu e sim o Espírito. Agora antes de expor meus argumentos (e talvez os de Deus) é preciso que eu conte como isso se deu.

Sinceramente, nunca aceitei o que os pastores e líderes diziam sobre o cinema. Eles falavam sobre a influência dos filmes sobre a mente, que o inconsciente fica susceptível às propagandas, as tão faladas mensagens subliminares, e tantos outros argumentos que talvez vocês também já estejam cansados de ouvir. E creiam-me, eu ouvi e assisti bastante palestras sobre isso. E apesar de tudo isso ser verdade (acessem os links abaixo para saber mais a respeito) eu pensava: “Bom eu nunca matei, roubei, me prostituí, usei drogas e outras substâncias nocivas, nunca traí, e nem fiz nada do que a maioria dos filmes sugere. Logo, não tem problema eu ir ao cinema já que os filmes não exercem poder sobre mim.” E como a maioria dos argumentos contra têm como base a escolha dos filmes eu não via o menor problema em assistir aos bons com direito a som potente, uma mega tela, ar-condicionado, cadeiras confortáveis (nem sempre é verdade) e tudo isso pelo valor de uma meia-entrada.

E quanto aos argumentos bíblicos… Bom, eu sempre usei da premissa de que se a Bíblia não diz nada a respeito então não serei eu contra. Claro que isso é um dos argumentos mais falaciosos do mundo e, no íntimo, eu sempre soube disso. Ellen White? Eu bem que procurei em seus escritos algo que falasse sobre cinema ou algo o mais próximo disso, mas também não achei nada a respeito. Ou pelo menos fingi não ter achado para não ter que dar o braço a torcer. Fato é que para mim ninguém tinha claramente nenhum bom argumento capaz de dissuadir-me da ideia de ir ao cinema. Porém, o que ainda me intrigava é o fato de a igreja sempre ter aconselhado seus membros contra essa prática “mundana”, e mesmo não tendo bons argumentos para isso, pelo menos pra mim não tinha, eu aprendi que se a igreja dá um conselho você deve prestar atenção.

Certo dia, ouvi um senhor expor seus argumentos contra o cinema e, pela primeira vez, eu concordei totalmente. Não apenas concordei, mas depois de ouvi-lo procurei estudar mais sobre o assunto, e quanto mais estudava mais o Espírito me convencia de que eu deveria deixar essa espécie de diversão para trás. Portanto queridos amigos, o que vocês lerão em seguida é um estudo sincero e biblicamente baseado. Antes, peço que orem pedindo que o Santo Espírito abra vossa mente e vosso coração para o que será dito aqui.

Neste primeiro momento procurarei analisar apenas alguns versos bíblicos que servirão de parâmetro para minha argumentação. É bem verdade que em toda a Bíblia não há nenhum versículo sequer citando o cinema ou algum ambiente semelhante a este, porém isso não quer dizer que a mesma autorize ou até mesmo compactue com tal prática. Deus não apenas nos deixou leis e normas de como deveríamos viver, como também Se preocupou em nos deixar princípios que poderiam ser usados nas mais variadas situações.  Com base nisso trago alguns versos para nossa reflexão sobre o assunto.

1- Somo um povo separado, uma nação santa (1 Pedro 2:9, Êxodo 19: 5 e 6). Deus nos chama deste mundo corrompido e manchado pelo pecado para sermos Seus agentes morais e espirituais, responsáveis não apenas por ter Seu caráter refletido em nós, mas dar a conhecer Desse caráter ao mundo. “Como povo consagrado ao serviço de Deus, devemos ser diferentes das outras nações.” (CBA, vol. 1, p. 638). A vida do cristão deve andar na contramão do mundo, logo, devemos demonstrar que somos diferentes em nosso estilo de vida, incluindo o modo como nos recreamos e passamos nosso tempo.

2– A abrangência da Lei de Deus e como a mesma deve reger nossa vida (Salmo 119). Não deve ser surpresa de que a Lei de Deus é tudo que consta nos 10 mandamentos e muitos mais (Mateus 5-7). Na verdade, a grande controvérsia do Universo gira em torno dessa Lei. Lúcifer um dia acusou a Deus de ser injusto por ter feito uma lei impossível de ser cumprida. Entretanto, Cristo em sua passagem pela Terra demonstrou que além de tal Lei ser possivelmente cumprida ela também é santa, justa e boa (Romanos 7:12). Não somente Cristo a cumpriu como também ensinou enfaticamente que toda a Lei se resume basicamente em dois preceitos principais: amor a Deus e amor ao próximo (Mateus 22:36-40). Logo, deve-se fazer a seguinte pergunta: quando vamos ao cinema estamos amando a Deus? Estamos amando ao nosso próximo? Sejamos sinceros em nossas respostas. Não é irônico de nossa parte dizer que somos salvos por Cristo, mas agirmos contra a Sua lei já que nossa salvação deve ser refletida por nossas obras? Se há uma lei que rege o cinema e suas salas essa é a lei da competição – através do comércio – e não a Lei do amor.

3- “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.” (Salmo 1:1-2) Andar, se deter e se assentar representam os passos sucessivos e crescentes da vida do ímpio: “(1) anda na direção dos que estão alheios a Deus, conformando-se com os costumes pagãos; (2) se detém para associar-se com os rebeldes sob a maldição do pecado e brinca com a tentação; (3) une-se em definitivo ao grupo de pecadores, desconsiderando a luz. Um rabi disse: se duas pessoas se sentam uma ao lado da outra e não pronunciam nenhuma palavra da Torah (Lei), formam um conjunto de escarnecedores, do qual se diz: um homem bom não se assenta em companhia de escarnecedores.” (CBA, vol. 3, p. 710)

Curiosamente tudo isso que foi descrito acima pode ser facilmente aplicado ao ambiente cinema. Não se conhece quais as outras pessoas que estão ali, não sabemos se temem a Deus ou não, e o salmo é muito claro ao dizer que não devemos estar na companhia de tais. Na dúvida, melhor não fazer. “A pessoa se torna parte do grupo de espectadores… A cena que um cristão rejeita, a multidão pode muito bem aplaudir ou gargalhar dela; já a cena que o cristão aprova pode ter da parte do restante reação oposta. O impacto da maioria enfraquece o julgamento individual.” (Tratado de Teologia Adventista, p.789)

Outra coisa a ser observado com base no salmo, é que o cinema não é um ambiente regido pela Lei. Ela não exerce a menor influência ali, não se pode ouvir com clareza a voz de Deus. É claro que não falaremos sobre a lei em todas as nossas conversações e em todos lugares, mas não devemos nos colocar voluntariamente em um lugar onde seja impossível guardá-La ou até mesmo exercer influência positiva sobre as pessoas. E essa é a real diferença do cinema, casas de show, bares e danceterias de lugares como a faculdade e o trabalho – onde também existem escarnecedores. Entretanto nossa influência nesses últimos pode ser muito maior e ouvida do que naqueles. Ouso inclusive dizer que nossa influência nestes ambientes nocivos é nula. Quantos ao ouvirem uma piada ou uma mentira sendo contada sobre Deus em um filme se levantarão no meio da sala e procurarão contradizê-la defendendo o nome do Senhor? Não muitos, suponho, ou talvez nenhum. Eu pelo menos nunca fiz, e arrisco dizer que se tentarem além de não serem ouvidos ainda serão expulsos do local. E, se você não contradiz ou não defende quer dizer que ao mesmo tempo compactua com o que foi dito, sendo assim é tão escarnecedor quanto quem riu ou fez a piada – não sou eu quem o diz, e sim o salmo. Portanto, você na posição de mensageiro de Deus não pode se colocar em lugar em que, com toda certeza, não terá oportunidade de falar sobre Deus e Seu amor, ou mesmo exercer seu livre-arbítrio de tentar expor sua opinião.

“Entre as associações dos seguidores de Cristo para recreação cristã e as reuniões para divertimento e prazeres mundanos se notará marcado contraste. Em vez de oração e menção de Cristo e de coisas sagradas, se ouvirão dos lábios dos mundanos risadas tolas e conversação frívola. Sua intenção é propiciar divertimento geral. Sua diversão começa com estultícia e termina em futilidade. — The Review and Herald, 25 de Maio de 1886. LA 512.3”

4- A predominância da cultura local sobre a vontade de Deus (Daniel 1 e 3). Analisando rapidamente o capítulo 1 do livro de Daniel veremos que muitos jovens de Israel foram levados cativos à Babilônia. Desses jovens o rei mandou que se escolhessem apenas alguns que ele julgava serem os mais aptos e inteligentes. A Bíblia nos conta que os escolhidos eram de linhagem nobre e real. Opa! Lembram do primeiro verso analisado acima (1 Pedro 2:9)? A estes jovens escolhidos foram dadas lições sobre a cultura e língua locais (v.4), além de serem submetidos a uma nociva mudança no seu estilo de vida (v.5). Agora, reflitam um pouco se não é a mesma coisa que o mundo nos tenta a fazer. Somos ensinados a todo o momento a nos submetermos e fazermos parte da cultura do mundo, até mesmo quando essa compromete nossos princípios bíblicos, e muitos de nosso povo já adotaram o estilo de vida mundano, que muitas vezes contradiz o estilo de vida cristão (vestuário, músicas, recreação, alimentação, etc), mesmo sabendo que somos chamados a ser diferentes. O relato nos diz que apenas quatro dos jovens escolhidos (todos eram do povo de Deus) recusaram-se a violar a vontade de Deus. Há de se supor que todos os outros aceitaram a vontade do rei. Vocês conhecem o resto da história. Esses quatro foram superiores a todos os outros ao final do período de teste e receberam cargos de confiança como recompensa.

Agora, vamos fazer uma rápida ligação com o capítulo 3. Nabucodonosor, impressionado e envaidecido pelo sonho que lhe fora revelado por Daniel, manda fazer uma grande estátua de ouro e ordena que todos os povos e nações se curvem perante ela. Todos, menos três jovens hebreus do primeiro capítulo, se curvaram à estátua, inclusive outros judeus que haviam sido levados cativos. Qual o motivo? Bom, o que me faz pensar é que a mente deles estava tão submersa e entretida com a cultura local que não souberam discernir entre o certo e o errado naquele momento, esquecendo-se da sua verdadeira identidade e nacionalidade e de que Rei merecia unicamente sua adoração. E em vez de serem uma luz em uma nação pagã e demonstrar a Quem serviam como fez Daniel e seus amigos, esses outros jovens hebreus preferiram unir-se ao restante da multidão e rejeitar ao Senhor, talvez até inconscientemente.

Quantos de nós não somos levados a fazer o mesmo nos dias atuais. Moldados pela cultura ao nosso redor esquecemos-nos dos claros ensinamentos que Deus nos deixou e rejeitamos sua Luz. Preferimos nos unir ao mundo e adotar seu estilo de vida. Os atores, diretores, filmes e personagens tornam-se nossos objetos de adoração. E qual a maior representação de adoração do cinema? A festa do Oscar. É ali que grandes nomes – e “ídolos” – são premiados com uma pequena estatueta banhada a ouro, e milhões de pessoas ao redor do mundo acompanham e reverenciam essa cerimônia. Pensem bem, quem não gostaria de ver seu ator, atriz, diretor, ou filme favoritos sendo agraciados com um Oscar!? E como ídolos e deuses que muitos adoram, até damos ofertas em sinal de devoção na forma dos nossos ingressos. Como vocês acham que toda a indústria cinematográfica é mantida, como a festa do Oscar é produzida, como tanto luxo e ostentação são sustentados senão com o nosso dinheiro, que deveria ser usado para a glória de Deus. Portanto, devemos refletir sobre a quem estamos verdadeiramente adorando e para quem estamos entregando uns dos mais valiosos dons que o Senhor nos entregou – tempo e dinheiro. Acaso estaremos nós também esquecidos de nossa identidade de remanescente de Deus, do que nossos pioneiros nos deixaram e ensinaram, e a Quem verdadeiramente devemos devotar nossa adoração?

Eu poderia elencar diversos outros versos bíblicos que se provariam ser tão bons parâmetros como estes aqui mostrados, entretanto creio que para o coração humilde e sincero e disposto a conhecer a vontade de Deus estes aqui expostos já servirão de ajuda para alguma tomada de decisão. Longe de mim querer lhes convencer a respeito de algo, meu objetivo é pura e simplesmente o de fazer com que reflitam e procurem por si mesmos estudar um pouco mais sobre esse assunto. Cinema não é um assunto trivial para nós. Não é uma questão de conservadorismo, fanatismo ou pós-modernismo. Tem que ver com a vontade de Deus para nossas vidas e relacionados a ele encontram-se muitos outros motivos pelos quais Satanás pretende enganar o povo que foi chamado das trevas para a maravilhosa luz do Senhor. Portanto, devemos sim discuti-lo e tanto quanto possível pedir a orientação do Espírito Santo para que cheguemos a melhor e mais acertada decisão. Pretendo em outro momento trazer os conselhos de Ellen White a respeito desse assunto, portanto não deixe de ler nossa parte 3.

“Se verdadeiramente pertenceis a Cristo, tereis oportunidades de testificar em Seu favor. Sereis convidados a ir a lugares de diversões, e esta será uma oportunidade que tereis de testificar de vosso Senhor. Se fordes leais a Cristo então, não procurareis encontrar desculpas para não aceitar o convite, mas clara e modestamente declarareis que sois filhos de Deus, e vossos princípios não vos permitiriam estar num lugar, mesmo ocasional, onde não podeis convidar a presença de vosso Senhor.” — O Lar Adventista, 519.