Cristãos e esportes combinam? Parte II- Afinal, qual é o problema dos esport

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Queremos começar pedindo desculpa pela demora de se postar esta segunda parte, esperamos que o tempo tenha pelo menos feito com que seu interesse pelo assunto tenha aumentado! Hoje nós vamos dar uma parada na análise histórica da primeira parte para nos deter em orientações bíblicas, mais tarde retornaremos para história de Avondale (que você com certeza leu na Parte I). 

 Vamos então direto ao assunto!

Futebol_Art_by_felipexakal

Possivelmente, sua curiosidade levou você a procurar nos textos do Espírito de Profecia algumas razões para entender o motivo pelo qual Ellen White parece ser tão avessa às práticas esportivas. Talvez, você tenha percebido também, que o Espírito de Profecia não é contra nós nos exercitarmos, pelo contrário, somos estimulados a movimentarmos nosso corpo em benefício do Templo do Espírito Santo.
Para mostrar que esse dilema histórico realmente existe, confira rapidamente um trecho do livro The Ellen G. White Encyclopedia (recomendado pelo escritor da meditação deste ano, George Knight), escrito por Denis Fortin e Jerry Moon:

“Ellen White evitou esportes competitivos em praticamente todas
as suas formas. De fato, seus escritos deixam claro que ela matinha
pouco ânimo quanto a atividades esportivas de qualquer espécie. A  origem de sua oposição se explica tanto pelo espírito
combativo inerente à maioria dos esportes, como porque, de maneira
geral, eles desviam a mente das atividades mais sérias da vida.” 
(Essa foi uma tradução feita por mim, se alguém quiser conferir o original em inglês
desse livro da igreja, o link estará ao final da postagem).

Mas então, vamos analisar essa opinião de Ellen White na Bíblia e em seus escritos?

Listarei alguns argumentos bíblicos e do Espírito de Profecia que, com um olhar aberto para novas descobertas, poderão mudar a visão que se propaga dos esportes:

Argumento da Competição

Esse tem sido um dos argumentos mais fortes contra várias práticas esportivas. A competição nunca foi plano de Deus, pois Ele é um ser de cooperação.

“Fazendo sempre com alegria oração por vós em todas as minhas súplicas, pela vossa cooperação no evangelho desde o primeiro dia até agora.”Filipenses 1:4-5

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.” João 13:35

O jogo competitivo exige que se supere alguém para obtenção de prazer, alguém quer ganhar, o outro não quer perder. A filosofia darwinista paira nessa partida, o mais forte, mais astuto, mais inteligente ou habilidoso, ganha. O outro é deixado para trás.

Cristo disse certa vez que o quem quisesse ser o maior no reino de Deus, precisaria ser o último:

“Sentando-se, chamou os Doze e disse-lhes: Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos.” Marcos 9:35

Então por que praticamos uma atividade cujo objetivo é ser o primeiro? Não somos TODOS mais que vencedores no Reino de Deus? (Rm 8:37) O cara que quis ser o primeiro se deu bem?#AchoQueNão

“Tu dizias: Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembléia, no extremo norte. Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo.” Isaías 14:13-14

Biblicamente falando, Deus não quer que haja competição entre seus filhos, mais claro do que Ellen White foi, impossível:

“Não tenho conseguido encontrar nenhum caso em que Ele tenha ensinado os Seus discípulos a empenharem-se na diversão do futebol ou em jogos de competição, a fim de fazerem exercício físico, ou em representações teatrais; e, no entanto, Cristo era nosso modelo em todas as coisas. Cristo, o Redentor do mundo, deu a cada um a sua obra, e ordena: “Negociai [ocupai-vos, na versão inglesa] até que Eu venha.” Luc. 19:13.” Fundamentos da Educação Cristã, pág. 229

Futuramente, pretendo explicar melhor eventuais dúvidas ou desdobramentos desse argumento.

Argumento do Exibicionismo

Quanto mais se joga um esporte ou jogo, mais prestígio você tem ao ser bom naquilo. Não basta fazer um gol, se for “de bicicleta” você será o herói da partida; não basta vencer o adversário, é preciso fazer a dança da vitória; não basta simplesmente ter derrotado alguém de 1×0, se for de 7×1 (rsrs) parece que a vitória foi “melhor”, isto é, humilhar o adversário fará seu nome entrar para história.

Será que é isso que Cristo pede de nós?

“Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.”

Gálatas 6:14

Os jogos e esportes nos levam a exaltação do EU, alimentando que somos bons, autossuficientes, experientes, quase invencíveis em uma certa modalidade. Como cristãos, por que insistimos em dizer que praticar uma atividade que alimenta nosso lado pecaminoso não tem problema? Não devemos ouvir o que a Bíblia diz sobre isso?

“Abstende-vos de toda a aparência do mal.” 1 Tessalonicenses 5:22

E o que Ellen White diz?

“Reuniões para desfrutar dos prazeres frívolos e mundanos,aglomerações para comer, beber e cantar, são inspiradas por

um espírito inferior. Representam uma oferta a Satanás.Exibições ousadas de bicicleta são ofensa a Deus.Sua ira está inflamada contra os que fazem tais coisas.Nessas satisfações pessoais a mente se torna tola, como ocorre com a embriaguez. A porta é aberta para associações vulgares. Os pensamentos, autorizados a correr por um canal de baixo nível, logo pervertem todas as faculdades do ser.

Como o Israel do passado, os amantes dos prazeres comem e bebem, e se levantam para folgar. Há risos e bebedices, gritaria e farra. Em tudo isso os jovens seguem o exemplo dos autores dos livros postos em suas mãos para estudo. O maior de todos os males é o permanente efeito que essas coisas exercem sobre o caráter.” Testemunhos para a Igreja Volume 8, pág. 66

Comer, beber e folgar… Onde será que já li sobre isso?

Argumento da Segurança/Saúde/Violência
Estes são alguns dados da Comissão de Segurança de Produtos de Consumo em relação ao ano de 2009, da National Safe Kids Campaign e da Academia Europeia de Pediatria:

  • As maiores taxas de lesão ocorrem em esportes que envolvem contato e colisões.
  • Mais de 775 mil crianças e adolescentes com idades entre 14 e mais jovens são tratados em salas de emergência do hospital por lesões relacionadas ao esporte a cada ano. A maioria das lesões ocorreu como resultado de quedas, ser atingido por um objeto, colisões e excesso de esforço durante as atividades esportivas não organizados ou informais.
  • Basquetebol. Mais de 170 mil crianças com idades entre 5 e 14 foram tratados em salas de emergência do hospital para os ferimentos relacionados com o basquete.
  • Futebol. Quase 215 mil crianças com idades entre 5 e 14 foram tratados em salas de emergência do hospital para os ferimentos relacionados com o futebol, com cerca de 10 mil dos hospitalizados em decorrência de seus ferimentos.
  • Beisebol e softbol. Cerca de 110 mil crianças com idades entre 5 e 14 foram atendidos na sala de emergência do hospital para os ferimentos relacionados com o beisebol. Baseball também tem a maior taxa de mortalidade entre os esportes para as crianças com idades entre 5 a 14, com 3-4 crianças que morrem de lesões de beisebol a cada ano.

É claro que acidentes, em atividades lícitas e ilícitas sempre ocorrerão, mas é notório que o ambiente de disputa, excitação e embate sempre resultarão em maior chance de ferimentos, deixando o corpo inutilizado para pregar o Evangelho.

Veja este comentário do artigo: “A PERCEPÇÃO DE ADOLESCENTES SOBRE A AGRESSIVIDADE NAS DIFERENTES MODALIDADES ESPORTIVAS OFERECIDAS PELA ESCOLA” de Juliana Carvalho Reis e Laíssa Eschiletti Prati:

Para Machado e Brandão (2006), o esporte distingue-se de muitas outras formas de atividades humanas por sua elevada emocionalidade. Os sentimentos provocados pelas competições são vivenciados, não só pelos participantes diretos, como também por numerosos observadores e espectadores (…)  Deve também ser levada em conta a participação direta das expectativas que cada torcedor leva para a competição, influenciando assim o comportamento agressivo de cada atleta na competição, por exemplo: “Para deixar os jogadores mais motivados, pra eles partirem pra cima”. Quando há uma platéia e/ou uma torcida, esta também influencia o emergir e a manutenção da agressão, tanto entre os que estão diretamente envolvidos na atividade esportiva, como nos que a assistem (MACHADO; BRANDÃO, 2006).

Parece ser cristã uma atividade em que se estimula seus participantes à agressão (física,moral ou verbal)? Não é uma questão de equilíbrio, o jogo é naturalmente mais envolvente, mais emocionante, mais excitante e mais memorável quanto mais acirrado, disputado e duelado for. Como Jó agradava a Deus mesmo? Desviando-se de fazer o mal (Jó 1).

Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?
1 Coríntios 3:16

Argumento da Associação com o Mundo 

Esse argumento questiona ao praticante se a atividade por ele realizada o associa erroneamente com o mundo. A base bíblica mais famosa desse argumento é Filipenses 4:8

“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.”

Filipenses 4:8

Vamos pensar um pouco na “boa fama” dos esportes? Querido leitor, é claro que, assim como o uso de vinho, café, benefícios corpóreos de uma atividade sexual extra-conjugal (que não deixa de ser uma atividade sexual), os esportes competitivos podem contribuir em algum aspecto positivo para a saúde, mas será que esse benefício justifica algum aspecto que transgrida a moral cristã? O saudável “um copo de vinho”, libera ao cristão beber vinho? Se os esportes não passarem no teste de Filipenses 4:8, os benefícios que os esportes podem trazer à saúde justificam sua prática? É isso que tentaremos analisar.

Fama Boa, Honestidade, Pureza, Verdadeiro, Justo, Amável?

– Uma partida de futebol foi o estopim para o começo de uma guerra entre El Salvador e Honduras, países que disputavam uma vaga na Copa do Mundo de 1970;

– O esporte foi visto na Olimpíada de Munique como um meio de atacar Israel, onze atletas judeus foram assassinados por um grupo terrorista palestino;

– Recentemente foi descoberto, em vários países, que clubes esportivos têm sido usados para lavagem de dinheiro;

– Entre 1999 e 2008 tivemos 42 mortes em estádios brasileiros de futebol, somadas. Só em 2012 foram 23;

– Um professor brasileiro de Ensino Fundamental ganha em média 10.375 dólares por ano, o esporte paga ao Neymar pouco mais de 4 milhões de dólares reais por MÊS.

(Daremos mais exemplos em outra postagem específica sobre o tema)

A lista é imensa, mas não quero me estender muito, é possível ir ao Google e ver que existe muito mais injustiça nesse meio. Mas então, será que os esportes passaram no teste? Vamos checar a Bíblia e o Espírito de Profecia mais uma vez antes de chegarmos a uma conclusão?

A Bíblia Sagrada diz:

“Eu vos escrevi, pais, porque já conhecestes aquele que é desde o princípio. Eu vos escrevi, jovens, porque sois fortes, e a palavra de Deus está em vós, e já vencestes o maligno.

Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele.”

1 João 2:14-15

Ellen White alerta:

“O cristão, uma vez fervoroso, que entra nesses esportes, está na descida. Abandonou a região saturada pela atmosfera vital do Céu, e mergulhou numa atmosfera de névoa e cerração. Pode ser que algum crente humilde seja induzido a se unir a esses esportes. Mas se ele mantiver sua ligação com Cristo não poderá participar de coração dessa cena excitante. As palavras que ouve não são convenientes, pois não são a linguagem de Canaã. Os locutores não dão evidência de estarem fazendo melodias a Deus em seu coração. Mas há inconfundível evidência de que Deus é esquecido. Ele não está em todos os seus pensamentos. Estas festas de prazer e ajuntamentos para excitantes esportes compostos dos que professam ser cristãos, são uma profanação da religião e do nome de Deus.” TM 84

Argumento da Prioridade Do Reino de Deus

Imagine a cena, um filho chega para sua mãe e diz que quer frequentar uma igreja. A mãe então pergunta como é essa igreja, a sua história, o que fazem e quando se reúnem. O filho empolgado começa a dizer:


“Nossa igreja é muito bem organizada, mas para entrar no templo nós precisamos pagar um valor fixo logo na entrada. No ano de 2013, como os cultos são muito animados, 30 pessoas já foram mortas por membros da mesma igreja em várias de nossas unidades espalhadas pelo Brasil. Alguns membros dessa igreja levam bombas e armas de fogo para os cultos, não é permitido, mas já aconteceu várias vezes. Pra pegar um bom lugar no culto, é preciso chegar com bastante antecedência, e a pregação demora pouco mais de 1 hora e meia.

O principal dia de culto é o domingo, gritar e pular na Igreja é completamente liberado, inclusive falar palavrão não é pecado segundo nossa doutrina, nem consumir bebida alcoólica. Os pastores dessa igreja recebem absurdos de dinheiro, dinheiro que vem da audiência que damos pela televisão (ou outros meios midiáticos), pelo valor que pagamos na entrada, dentre outros métodos. Algumas vezes, a cada 4 anos, nosso culto é tão importante que o Brasil toma como feriado religioso, e é difícil ter alguém que não assista à nossa doxologia animada.

 

Temos serviço de cântico, uniforme da igreja e tudo mais. Ah, se tudo der certo em uma de nossas reuniões, saímos para beber com os amigos pra relembrar os melhores momentos do culto. Se o culto não tiver sido muito bom, saímos pra beber do mesmo jeito. Muitas e muitas famílias já ficaram sem pais e mães em acidentes que nós causamos por aí. É triste, mas não deixamos de ir aos cultos por causa disso. Semana que vem tem culto, posso ir, mãe?” 

Que mãe liberaria uma coisa dessas? Parece estranho pensar em uma igreja assim, mas não é absurdo pensar em cristãos que vão a estádios para ver seus times, mesmo que talvez esse culto lhe ponha em risco.

Pense nos argumentos que damos para os jovens não irem ao cinema, agora pense se esses argumentos não se encaixam em relação a um estádio de futebol (o ambiente, o conteúdo, o destino desse dinheiro, sua influência em nossa vida, etc). Quando trocamos a palavra “cinema” por “esporte”, ouvimos um suspiro mental dizendo: “Ufa! Agora pode!”

Por que parece que martelamos mais a consciência dos jovens em relação ao cinema do que em relação ao estádio? O estádio é muito menos cristão, mais perigoso e de filosofia pior que o cinema. Incoerência nossa?

E mesmo que alguém assista ao jogo em sua casa, deve dar uma baita de uma vontade de ler a bíblia durante 1 hora e meia depois de uma partida de futebol, né? Ah não?

Por que parece tão difícil pensar na ideia de ler a bíblia por 90 minutos? Se o pregador passa 5 minutos do tempo do sermão, começa a insatisfação. Tem gente que levanta e vai embora com o atraso da programação na Igreja, mas depois do jogo de futebol fica assistindo até mesmo a entrevista, super inteligente diga-se de passagem, dos jogadores falando sobre o jogo. Por quê?

A resposta é simples: a prática dessas atividades, sua contemplação e envolvimento, rouba a alegria da comunhão com Deus, tira nossas forças para o serviço voluntário e nos impossibilita de enxergamos a gravidade do erro que abraçamos como “lazer cristão”. Não damos prioridade ao Reino de Deus, pois sempre haverá alguém preferindo receber pão a nos assistir jogando uma partida de futebol.

“Quanto tempo é gasto por seres humanos inteligentes em jogos de bola! Mas acaso a satisfação nesses esportes dá aos homens o desejo de conhecer a verdade e a justiça? Mantêm a Deus em seus pensamentos? Levá-los-á a indagar: Como vai com a minha alma?” Conselhos Professores, Pais e Estudantes, pág. 456

Bem, vamos parar por aqui hoje, mas sei que você ainda tem muitas dúvidas. Ao que parece, esportes competitivos, excitantes, exibicionistas, que tiram nosso alvo do Céu, atividades que promovam embate e nos inclinam indevidamente ao perigo, não são coerentes ao estilo de vida cristão. Como enxergar esportes que não tenham isso? Será que essas advertências não foram só para o tempo de Ellen White? O que a IASD diz sobre o assunto? Como terminou o episódio de Avondale? Isso e muito mais será explorado em nossos próximos artigos, não perca!

Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus.
1 Coríntios 10:31

Referências:

Violência entre Torcidas Organizadas de Futebol
Enciclopedia Ellen White

A percepção de atividades agressivas esportivas na Escola