Revoltados com o Filho Pródigo

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Quantos de nós já não ficaram estarrecidos, senão revoltados, ao lerem pela primeira vez a parábola do filho pródigo? Inclusive conheço alguns que não concordam até hoje com a decisão do amoroso pai em receber seu filho novamente sem ao menos lhe dar nenhum corretivo ou palavra de repreensão. Afinal, quem havia sido um melhor cristão dos dois irmãos, o que ficou e serviu ao pai, ou o que pediu sua parte da herança e gastou tudo prodigamente em prazeres e diversões, porém reconheceu seu erro e voltou para pedir perdão? Acompanhe a leitura e descubra o que Relendo a Bíblia Nos Dias de Hoje nos traz de lição. Tenho ouvido bastante, inclusive de alguns amigos sinceros, a seguinte frase: “De que adianta eu estar dentro da igreja, mas fazer tanta coisa errada como vejo alguns ali dentro? Prefiro mil vezes estar fora e viver a vida como quero a ser tão hipócrita como eles. Assim, quando eu estiver com a vida bem ordenada, volto para a igreja e farei tudo certinho”, outros dizem ainda “Independente da vida que eu leve me basta ser sincero e Deus perdoar-me-á depois de tudo”. Eu mesma já me questionei um dia se não seria bem melhor sair da igreja e fazer tudo aquilo pela qual me sentia privada pelas regras e, depois de ter experimentado tudo que havia sonhado, todas as festas, bebidas e toda diversão, eu voltaria e seria a melhor dos membros adventistas. Digo desde já que esta é uma das maiores falácias que já existiu, mas para isso vamos analisar duas parábolas que abordam um tema parecido com este.

A primeira é a parábola do filho pródigo encontrada em Lucas 15:11-32. Aparentemente, nesta parábola o filho mais velho demonstra melhor o espírito cristão. Bom, ele poderia ter feito a mesma exigência que o irmão mais novo não poderia!? Na verdade, ao pai dividir a herança e dar ao filho mais novo o que lhe cabia, ele também entregou ao mais velho sua parte e, ainda assim, este mesmo filho decidiu permanecer trabalhando para seu velho pai. E ao final da parábola nos parece que o filho mais velho é tratado injustamente. Tanto trabalho e dedicação e jamais houve sequer uma festa como demonstração de aprovação. E depois de tudo que seu imprudente irmão fez ainda por cima vê-lo ser recebido por seu velho pai como se nada tivesse acontecido é para deixar qualquer um injuriado. Eu não tiraria a razão dele, na verdade eu me identifiquei durante muito tempo com esse “incompreendido” filho, afinal quantos já não se sentiram injustiçados ao ver quem aparentemente não merecia receber alguma espécie de honra?

Ellen White em seu livro Parábolas de Jesus, capítulo 23, nos mostra uma nuance da parábola que até então pode passar despercebida para quem a estuda. Ela diz do filho mais velho:

“Demonstra (o filho mais velho) que seu serviço era antes o de servo e não de filho. Ao passo que devia ter constante alegria na presença do pai, seus pensamentos estavam dirigidos aos lucros a serem acumulados por sua vida circunspecta. Suas palavras mostram que por essa razão se privou dos prazeres do pecado. Agora esse irmão deve partilhar das dádivas do pai, o filho mais velho julga que lhe fazem injustiça. Inveja a boa acolhida proporcionada ao irmão. Mostra claramente que se estivesse na posição do pai não receberia o pródigo. Nem mesmo o reconhece como irmão, porém dele fala friamente como “teu filho” PJ 106.5”.

Isso nos esclarece um pouco as coisas. O filho mais velho estava longe de ser esse poço de virtude que se pensava até então. Seu coração abrigava sentimentos egoístas e orgulhosos, a ponto de nem mesmo ficar feliz ao ver seu irmão retornar vivo. Acreditava piamente que suas obras até ali mereciam o devido reconhecimento, a ponto de chegar a dizer que seu pai era injusto e desrespeitá-lo. Será que não estamos nós fazendo o mesmo? Isso me leva à seguinte pergunta: não seria bem melhor vivermos uma vida desregrada, entregue aos nossos desejos e prazeres se, no final, basta pedirmos perdão e Deus nos receberá novamente? Aparentemente foi isso que fez o filho pródigo não? Para responder a essa pergunta sugiro a análise da seguinte parábola:

Mas, que vos parece? Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. Ele, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas depois, arrependendo-se, foi. E, dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo; e, respondendo ele, disse: Eu vou, senhor; e não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. (Mateus 21:28-31)

Aqui vemos duas classes de pessoas, a primeira diz claramente que não deseja seguir a vontade de Deus, já a segunda é hipócrita, pois diz que segue, no entanto ao ouvir o chamado de Deus não obedece. Tem aparência de piedade, mas nega sua eficácia. Superficialmente até parece que essa parábola confirma a pergunta feita acima, afinal Jesus termina dizendo que meretrizes e publicanos, ou seja, aqueles que viveram uma vida em desacordo com a vontade divina, terão preferência no Reino de Deus. No entanto, vale lembrar que Cristo pode até não ter condenado o primeiro filho, mas Ele também não o elogiou.

Nas palavras da mensageira inspirada lemos o seguinte:

“A classe que age como o filho que disse “não quero” não merece elogios pela posição que toma. Tal franqueza declarada não deve ser enaltecida como virtude. Esta sinceridade de caráter, santificada pela justiça e santidade, produzirá testemunhas corajosas para Cristo; mas quando usada, como neste caso, pelo pecador, é insultante e desafiadora, e beira a blasfêmia. Alguém não é menos pecador porque não é hipócrita. Quando os apelos do Espírito Santo chegam ao coração, nossa única segurança está em responder a eles sem demora.” (Ms 127, 1899)

Ao estudar essas duas parábolas vê-se que Cristo estava a comparar o filho mais velho (parábola do filho pródigo) e o primeiro filho (parábola dos dois filhos) com os escribas e fariseus de Seu tempo, pois os mesmos procuravam ganhar a honra e o favor de Deus por meio de suas obras e méritos e, ao mesmo tempo em que diziam obedecer aos mandamentos divinos por meio de tradições e costumes, esqueciam-se da verdadeira essência da lei divina. Jesus jamais disse que o filho mais novo estivera certo em seu proceder, como jamais condescendeu com a vida de pecado com qual levavam as meretrizes e publicanos. Estes últimos não foram louvados pela sinceridade com a qual viviam suas vidas, mas sim pela sinceridade com a qual ouviram os apelos e convites de Jesus e obedeceram à Sua ordem de “vá e não peques mais”. “A prova de sinceridade não está nas palavras, mas nos atos. As palavras não são de valor algum se não forem acompanhadas de atos equivalentes” (PJ, 142). Logo, a sinceridade não preserva ninguém do fato de estar errado e ela não o pode livrar de nenhum apuro. Estar no caminho correto é o essencial.

Já na parábola do filho pródigo o foco real está na graça e perdão que nosso Pai Celestial oferece a todos aqueles que andaram errantes pela vida, mas decidiram humildemente voltar aos braços do Onipotente. Quanto ao filho mais velho, não se sabe até hoje se ele entrou ou não para festejar com o pai a volta de ser irmão ou se o filho mais novo passou a viver uma vida honrosa dali em diante, pois a resposta dependia dos ouvintes a quem Jesus estava se referindo, da mesma forma que a mesma depende de nós hoje, pois a cada dia nossa vida é uma resposta à continuação dessa parábola.

Quanto àqueles que estão fora da igreja por não quererem ser hipócritas e vivem suas vidas em desacordo à vontade de Deus, e àqueles que estão com um pé na igreja e outro no mundo, eu deixo o seguinte conselho:

“É perigoso postergar a obediência. Podeis nunca mais ouvir o convite. E ninguém se lisonjeie de que o pecado acariciado algum tempo pode ser deixado facilmente aos poucos. Não acontece assim. Todo pecado acariciado debilita o caráter e fortalece o hábito; a depravação física, mental e moral é a conseqüência. Podeis arrepender-vos do erro que cometestes, e pôr os pés no caminho justo, porém, o molde de vosso espírito e a familiaridade com o mal vos tornarão difícil distinguir entre o bem e o mal. Pelos maus hábitos formados, Satanás vos atacará sempre e sempre. PJ 147.3″

Não tenha medo de voltar ou de estar na igreja mesmo que aos seus próprios olhos pareça errado. Jesus jamais disse que precisaríamos ser perfeitos para nos achegarmos a Ele. Devemos ir a Ele como estamos, com todos os nossos pecados, erros, prazeres e egoísmos e, pela Sua graça e com o auxílio do Santo Espírito, seremos transformados e recebidos como filhos de Deus. Contudo, ao ouvirmos o “Eis que estou a porta e bato” devemos rapidamente atender-lhe o convite e procurar mudança de vida, deixando para trás tudo o que nos separa de Deus e Seu amor.

“Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo. Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado; Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim. Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações.” Hebreus 3:12-15