Sábado e Templo- Tempo e Espaço de Deus

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Você já viu alguns irmãos vendendo CDs no estacionamento da Igreja? Já ouviu irmãos durante o sábado conversando sobre futebol quando deveriam estar no JA? Já viu jovens comentando sobre filmes no Pequeno Grupo de sexta (antes, durante ou depois da programação)? Já se perguntou se o sábado a tarde foi feito para tirar aqueles 5 S? (Santa soneca safa do santo sábado). Eu já.

Bem, cada um desses assuntos daria muitas e muitas páginas para explorarmos, mas  não é  propósito nosso fazer um tratado de teologia sobre isso. Na verdade, quero mostrar uma palavra que aparece como pano de fundo para esses dois itens: Santidade.

santidade

Lembra-te do dia de Sábado para o santificar. Êxodo 20:8

Porém eu entrarei em tua casa pela grandeza da tua benignidade; e em teu temor me inclinarei para o teu santo templo. Salmos 5:7

Alguns estudos da física, como a teoria da relatividade, tentam explicar as relações de tempo e espaço existentes. Veremos que na Lei de Deus, também existe tempo/espaço, conceitos que são mutuamente dependentes assim como o Universo não funciona só com tempo ou só com espaço.

O sábado e o templo são santos. Vemos que os compartimentos do santuário de Deus tinham designações de Lugar Santo e Santíssimo, e, por parte do tempo, Deus ordena que mantenhamos o sábado santo.Talvez algumas dessas assertivas sejam óbvias para leitores da Bíblia que já se deparam com esses versos frequentemente. Gostaria, no entanto, de aguçar nossa percepção com algumas perguntas simples: O que é algo santo?

“Santo significa separado, que não pertence ao mundo.”- É a resposta, também correta, que costumamos dar.

Mas e se não existisse pecado, imaginando , por exemplo, que Cristo já tivesse retornado para nos buscar, esses elementos continuariam santos? Seriam separados de quê em um mundo sem pecado? Vamos com calma analisar os dois itens de forma sucinta, nada de parar de ler, hein, Deus está vendo sua preguiça!

1) Sábado

Se lhe perguntarem, leitor, em que dia Deus terminou a Criação, o que você responderia? “Sexto”? Em várias ocasiões ouvi essa resposta, mas ela está errada.

E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito.
Gênesis 2:2

Infelizmente, faz parte do subconsciente adventista pensar que o Sábado não faz parte da Criação de Deus, como se Deus tivesse terminado seu ato criativo no sexto dia, encerrando com o homem. Talvez, por isso exista tanta negligência em relação ao nosso comportamento no sábado, como se tratasse apenas de um capricho de Deus.

Não existe criação sem sábado! Se analisarmos bem, Deus criou com o sábado não apenas um descanso, mas um sistema de medir o tempo. Graças ao sábado, fechando os 7 dias semanais, encontramos como nos organizar em relação ao Universo criado por Deus, a semana é um grupamento fundamental para o calendário. Deus previamente já se importara com isso  ao dizer no quarto dia sobre os astros:  “sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos.”
Gênesis 1:14

Não há como negar que esse dia é um presente para todos nós. Ele nos lembra do ato criativo de Deus, mostrando que Ele bondosamente nos deu um mundo perfeito e resolveu tirar-nos da inexistência (Gen 1:26); era o dianatureza preferido por Cristo a fazer suas curas (Lc 13:10-17); dia de celebrar com alegria (Êx 31:16) e também é dia para nos aproximar da Palavra (Lc  4:16). Note que a Bíblia em momento algum diz que o sábado nos coloca em uma posição passiva monástica, ganhando poderes de levitação por meditação mental. O sábado é um dia de atividade!

Nesse dia, Deus reserva especial atenção para estar conosco. O sábado foi dedicado para estarmos diante do Pai, por isso, antes e depois do pecado, o sábado continua sendo importante para mantermos comunicação com Ele (deve ser difícil se comunicar com alguém enquanto se está dormindo de tarde #Indireta).

“Ninguém ssonoe deve sentir na liberdade de gastar tempo santo inutilmente. Desagrada a Deus que os observadores do sábado durmam muito tempo no sábado. Eles desonram a seu Criador em assim fazer e por seu exemplo, dizem que os seis dias são demasiado preciosos para que os empreguem para descansar.”(Ellen White, TS1 pág. 270)

Observação: temos tempo suficiente para dormir sábado no período noturno da sexta-feira até o despertar da manhã do culto, o que já é 1/3 do sábado. A prioridade do dia é servir, não ser servido. Podemos nos esforçar mais para nos preocupar com nosso irmão, se for necessário, abrindo mão de algumas regalias.

Imagine o seguinte, se Deus e Seu povo têm uma história de dedicação tão especial para esse dia, será que conversar sobre séries, filmes, novelas, jogos, animes ou celebridades é um assunto que você puxaria com Deus? E com nosso próximo? O que nos faz pensar que podemos conversar sobre o que bem entendemos no sábado? Poucos prestam atenção em uma parte da benção em Isaías 58 para os que guardam o sábado:

“Se desviares o pé de profanar o sábado […], nem falares as tuas próprias palavras, Então te deleitarás no Senhor, e te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te sustentarei com a herança de teu pai Jacó; porque a boca do Senhor o disse.”  Isaías 58:14

“O quarto mandamento é transgredido mediante o conversar-se sobre coisas mundanas, ou leves e frívolas. Falar sobre qualquer coisa ou sobre tudo que nos vem à mente, é falar nossas próprias palavras. Todo desvio do direito nos põe em servidão e condenação.” (Ellen White, TS1 pág. 269)

Deus nos pede para santificar o sábado porque Ele mesmo também o santificou. A guarda do sábado implica ausência de atividades comerciais para dedicação exclusiva ao relacionamento com Deus e para com nosso próximo. Talvez assim (pensando que o sábado foi usado por Deus para cura, libertação, ensino, pregação e perdão) o conceito de santidade possa se ampliar um pouco, mas ainda vamos avançar mais.

Nesse ponto aprendemos que a santificação não é mística, ela tem mais a ver com o que fazemos para o próximo do que o que fazemos por nós mesmos.

2) Templo

Se pararmos para pensar nas funções do santuário, poderemos elencar uma série de atividades lícitas que ocorriam nos seus compartimentos e dependências: trazer ofertas e sacrifícios (Lv 1:3), fazer música para Deus (II Cr 7:6), realizar cura (Mt 21:14), ensinar o povo (Jo 8:2), resumindo, era uma construção feita por cooperação humana, em benefício dos homens, para a causa de Deus.

No caso especial de Salomão, vemos um detalhe muito interessante na fala de Deus ao findar-se a construção do templo.

E o Senhor lhe disse: Ouvi a tua oração, e a súplica que fizeste perante mim; santifiquei a casa que edificaste, a fim de pôr ali o meu nome para sempre; e os meus olhos e o meu coração estarão ali todos os dias. I Reis 9:3

Em hebraico, o mesmo verbo de Gênesis 2 “santificar” (קדוש) que se aplicou ao sábado, é usado aqui para se falar da santificação da casa de Deus (termo que Deus repete no verso 7). As Escrituras parecem apontar uma relação muito forte entre o Sábado e o Templo, posto que os serviços religiosos do sétimo dia eram feitos neste local. O que nos faz pensar que, assim como o sábado não é um dia comum, o templo também não é um local comum, mas um espaço dedicado para adoração.

Cabe então aqui uma pergunta bem inquietante: a Bíblia permite fazermos comércio ou qualquer outra atividade lucrativa no Templo já que, assim como o sábado, é tido como santo perante Deus?

Existe um episódio polêmico no ministério de Cristo no qual se relata que Jesus expulsa algumas pessoas do Templo, um olhar tendencioso poderia achar brutalidade da parte de Jesus, mas uma análise mais meticulosa revelará os propósitos de Cristo. Existe certa discussão no meio teológico se Cristo expulsou duas vezes ou se os relatos dos Evangelhos falam todos de uma mesma expulsão, porém, independente disso, os quatro relatos são esclarecedores (Mt 21:12-13; Lc 19:45-46, Mc 11:15-17 e Jo 2:14-17).

Analisando o texto, Cristo expulsa duas classes de pessoas: vendedores (comerciantes) e cambistas (pessoas que prestavam serviço fazendo a equivalência e troca de moedas). Esse detalhe revela quChicote Jesuse Cristo foi contra o mercado instituído pela compra e venda e contra existir prestação de serviço pago (mesmo porque todo serviço pago, na verdade, é a compra de uma habilidade empregada em favor de algo). No Evangelho de João, é impossível negar que ali há uma expressa proibição contra qualquer atividade lucrativa, sendo elas honestas ou desonestas:

“e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de negócio” João 2:16

A palavra em grego para “negócio”, é uma possível alusão ao empório antigo, centros de negócios marítimos nos portos comerciais, lugares onde havia compra, venda, troca de favores, e, claro, lucro.

Outros evangelhos, como Mateus, na “segunda expulsão”, relatam a conhecida frase:

“Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores.” Mateus 21:13

Toda vez que Cristo usa a expressão “Está Escrito”, é bom analisarmos de onde Ele extrai essas citações. Nesse caso, Jesus usa sua autoridade unindo dois versos: Isaías 56:7 (Casa de oração) e Jeremias 7:11 (covil de salteadores). Esses profetas do Antigo Testamento, em seus contextos imediatos, estavam falando respectivamente sobre a guarda do sábado e sobre o lugar de adoração (e sua evidente profanação por pessoas hipócritas), a mesma relação que queremos traçar neste artigo.

O mais incrível dessa união de textos, é que Jesus usa uma porção de um texto sabático de Isaías aplicando-a em um dia que não era sábado! Durante o transcorrer do texto de Isaías 56, é dito que aqueles que se guardassem de não transgredir o santo sábado, seriam levados ao santo monte e suas ofertas seriam aceitas. Esse paralelo que Cristo faz, indica seu alto zelo pelo templo que havia sido dedicado a Deus.

Segundo a ordem exposta no Evangelho de Mateus, esse episódio possivelmente ocorreu no domingo à tarde, após a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Mas, conforme o Comentário Bíblico Adventista pontua na página 500:

“A narrativa de Marcos está numa ordem cronológica mais estrita, daí a segunda purificação do templo ter ocorrido na segunda-feira.” (Ver DTN 581 e 582)Jesus templo

O que temos certeza, é que esse episódio não foi no sábado. Ainda que estivessem profanando o templo, os judeus tinham um zelo exacerbado pelo sábado, o que deixa ainda mais claro que as atividades reprovadas por Jesus, ocorreram em um dia comum da semana. Jesus para ilustrar a santidade do templo, acabou por evocar um texto sobre a santidade do Sábado. Assim como não comercializamos no sábado, Cristo especifica que para o caso do templo, vale a mesma regra de se abster de atividades lucrativas.

O argumento de Cristo foi então construído, a casa de Deus não deve ser usada para fins que a Palavra de Deus não permite. No dia em que Deus requisitar que cobremos dinheiro para orar pelas pessoas, aí poderemos usar o templo para fins lucrativos. Até lá, a casa de Deus será chamada “casa de oração”.

Note ainda que os que profanavam o santuário não estavam no interior do prédio, mas no pátio. Esse detalhe nos mostra que Jesus considerava todas as dependências do templo como santas, e não só os compartimentos internos. Falando sobre Marcos 11:16, o Comentário Bíblico Adventista menciona na página 705 :

“Pelo templo. Ou seja, através dos átrios do templo. A palavra usada aqui para o templo é hieron, que se refere a todos os átrios e edifícios dentro da área do templo, e não o vocábulo naos, que é templo ou santuário propriamente dito.”

Ellen White menciona:

“Viu o pátio exterior do Seu templo convertido em lugar de comércio profano. O sagrado recinto transformara-se em vasta praça de câmbio” (DTN, 121)

Até por uma questão de logística, seria impossível realizar o comércio feito sem usar o pátio exterior.

Pra finalizar, Ellen White esclarece:

“Da santidade atribuída ao santuário terrestre, os cristãos devem aprender como considerar o lugar onde o Senhor deseja encontrar-Se com Seu povo. […] A reverência que o povo antigamente revelava para com o santuário onde se encontrava com Deus, em santa adoração, quase deixou de existir. Entretanto, Deus mesmo deu as instruções para Seu culto, elevando-o acima de tudo quanto é terreno. A casa é o santuário da família; e o aposento particular ou o bosque o lugar mais recôndito para o culto individual; mas a igreja é o santuário da congregação. Devem existir aí regulamentos quanto ao tempo, lugar e maneira de adorar. Nada do que é sagrado, nada do que está ligado à adoração a Deus, deve ser tratado com negligência ou indiferença.” (Testemunhos para Igreja Vol.5 pág. 470)

Alguém poderia indagar, mas as orientações quanto ao templo não foram restritas ao passado?

“Não conviria lermos com frequência as instruções que Deus mesmo Se dignou dar aos antigos hebreus para que nós, que temos a verdade gloriosa irradiando sobre nós, os imitemos em sua reverência para com a casa de Deus? Temos motivos de sobra para alimentar espírito de fervor e devoção na adoração a Deus. Temos até motivos para ser mais ponderados e reverentes em nosso culto do que os judeus.” (Testemunhos para Igreja Vol.5 pág.474)

Mas então se esses princípios não mudaram, quer dizer que nosso lugar de adoração é sagrado e dedicado exclusivamente a propósitos sagrados (e não lucrativos)?

A casa dedicada a Deus não deveria servir também para negócios. Se as crianças se reúnem dinheiropara o culto numa sala em que durante a semana funciona uma escola ou loja, é natural que sua atenção seja desviada por lembranças dos estudos ou de fatos ocorridos nessa mesma sala em dias precedentes.” (T5 pág. 474)

Esse é o único texto em que Ellen White fala isso? Não!

“Deve haver um lugar sagrado, como o antigo santuário, em que Deus Se encontre com Seu povo. Esse lugar não deve ser usado como sala para lanches ou de negócios, mas simplesmente para o culto de Deus. Quando as crianças frequentam a escola diurna no mesmo lugar em que se reúnem para prestar culto no sábado, não se pode fazer com que sintam a santidade do lugar, e que devem entrar com um senso de reverência. O sagrado e o comum estão tão ligados que é difícil distingui-los. Por essa razão é que o santuário dedicado a Deus não se deve tornar lugar comum. Sua santidade não se deve confundir ou misturar com os sentimentos comuns de cada dia, ou com a vida comercial. Deve haver solene e respeitoso temor sobre os adoradores, ao entrarem no santuário. E devem eles deixar para trás todos os pensamentos comuns e mundanos, pois é um lugar em que Deus manifesta Sua presença. É como se fosse a sala de audiência do grande e eterno Deus; portanto o orgulho e a paixão, a dissensão e presunção, o egoísmo e a cobiça, que Deus diz ser idolatria, são impróprios para tal lugar.” Manuscrito 23, 1886.

Como foi dito antes, o pátio externo é santo assim como os átrios internos, isto é, todas dependências da Igreja são dedicadas ao serviço de Deus de forma voluntária tanto dentro do prédio central quanto nos demais estabelecimentos da Igreja. Durante a Escola sabatina, Deus também está presente, também O louvamos com música e o cultuamos dando ofertas, sacrificando de nós mesmos. Essas atividades merecem dedicação locativa para uma comunidade, não podemos fazer, sem ser voluntariamente, um serviço que misture a adoração e estudo da Palavra com o lucro humano (mesmo nas “salas” da Igreja, como diz Ellen White) . Deus é Deus de decência e ordem (I Co 14:40).

Há mais textos sobre o assunto, mas creio que já foi suficiente para mostrar que venda de CDs, quermesses (GC 404, por favor, leia), venda de alimentos e até mesmo aulas nas salas de culto ou em qualquer dependência da Igreja, são fortemente desaconselhadas pela Bíblia e pelo Espírito de Profecia.

“Mas nem se fosse pra vender os livros de Ellen White?”. Ela responde um sonoro: não. Essa causa “nobre” não justifica quebra de princípios. Ellen White diz que a venda de livros não deveria ser feita ou cogitada na casa de Deus, e sim posteriormente por membros em outro lugar. (Testemunhos para Igreja Vol.1 pág 468)

O que Deus nos fala através do sábado e do templo então? Ele nos diz que a santidade depende primeiramente da presença dEle. Guardamos o sábado porque Ele primeiramente o santificou, e temos um lugar dedicado a Ele porque Ele santifica a igreja com a honra de Sua presença. Por que não pensarmos na próxima vez que formos a Igreja no sábado que temos um Deus que quer santificar nosso coração através do repouso sabático e do culto congregacional? Basta confiarmos em Deus que, fazendo Sua vontade, Ele certamente nos abençoará e não levará em conta o tempo de ignorância.

Sejamos separados (“santos”) não só do mundo, mas de nossa antiga mentalidade. A cada sábado na Igreja, enterramos nosso antigo Eu um palmo mais baixo, isso leva a vida toda, isso é santificação.

Em Jerusalém e em Judá, todas as panelas serão separadas para o Senhor Todo-Poderoso. Quando alguém for ao Templo para oferecer um sacrifício a Deus, essa pessoa usará as suas panelas para cozinhar a carne que será oferecida. E naquele dia não haverá nenhum vendedor no Templo do Senhor Todo-Poderoso. Zacarias 14:21

Matheus Fugita

  • giovannabonilha

    Gostei muito desse texto, achei muito interessante e concordo que igreja não é lugar de comércio. O que ainda me causa dúvida é qto a questão de aulas de música (mesmo não sendo paga), pois sou muito a favor do incentivo à instrumentação para os membros da igreja.