Argumentos a favor da ordenação de pastoras

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Depois de vários comentários que chegaram ao último texto sobre o assunto, decidi fazer um texto que explicasse e comentasse dúvidas e argumentos a favor da ordenação de pastoras. Se você não viu a parte 1, clique aqui

Alguns esclarecimentos prévios:

  1. Pensei que tivesse ficado claro que o ponto da ordenação feminina a ser discutido fosse no quesito pastoral, tanto é que foi delimitado o assunto quando se mencionou “Eis o principal argumento que vejo contra a ordenação feminina ao pastorado”. As imagens também foram escolhidas para esclarecer isso. Se ainda persiste alguma dúvida, esclareço agora que minha intenção no título foi dizer que a ordenação de pastoras não tem apoio bíblico, não fui contra ordenar mulheres que atuem na atmosfera que a Igreja adventista já considera e que tem respaldo Bíblico (diaconisas, por exemplo).
  2. Nós não postaremos comentários desrespeitosos que chegarem para nossa moderação, se o comentário foi respeitoso, ainda que discordante do artigo, ele será postado.
  3. Nós temos ciência de que o voto na Conferência Geral vai levar a possibilidade de que cada divisão decida se ordenará pastoras ou não, mas o pano de fundo da discussão é de teor exegético, cultural, teológico e com certeza envolve permitir ou não que pastoras sejam ordenadas (o fato de a China ou a Divisão Norte Americana já ordenar pastoras não quer dizer que a IASD mundial as reconhecesse oficialmente).
  4. A repercussão do artigo foi boa ao ponto de que talvez em breve tenhamos uma parte III.

Esclarecidos esses pontos, vamos ver se há bons argumentos a favor da ordenação de pastoras e responder a alguns comentários.

  • ” ‘Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre;não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.’ Gálatas 3:28 Esse verso diz que não há restrições de gênero para os que estão em Cristo, logo não há problemas em termos pastoras.” 

Réplica: Essas passagens estão claramente tiradas de seus contextos. O capítulo 3 do livro de Gálatas é essencialmente soteriológico (aquilo que trata sobre a doutrina da salvação), nele vemos Paulo discorrendo sobre a justificação pela Fé (v.7,8), missão de Cristo e nossa libertação (v.13), inclusão dos gentios no plano da salvação e sua participação nas promessas (v.14) e a função do batismo em nos revestir de Cristo (v.27). Assim sendo, o verso 28 começa dizendo “NISTO não há judeu nem grego; não há servo nem livre…”. Claro! No plano da salvação não há diferença de gênero, tanto homens como mulheres serão salvos pela mesma Graça, todos somos filhos de Deus.

  • Existia uma apóstola (apostoliza?) citada por Paulo em Rm 16:7 chamada Júnias, portanto podemos ordenar mulheres como pastoras.

Réplica: Segundo o texto grego Nestle-Aland, 27a. edição e o texto grego UBS, 4a. edição, a melhor variante atestada, o termo Júnias é masculino (apesar de que para alguns estudiosos o grego é incerto no que diz respeito ao gênero desse nome). No entanto, historicamente, Epifânio, bispo de Salamina em Chipre, refere-se a esse Júnias de Rm 16:7 como um homem que se tornara bispo de Apaméia da Síria. É extremamente improvável que esse nome seja feminino, logo não se pode validar esse argumento pois se instabiliza em uma dúvida.

Confira:http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_II__1997__1/ordenacao….pdf

  • O fato de mulheres serem profetizas como Hulda na Bíblia ou Ellen White na Igreja adventista é uma evidência de que podemos ordenar mulheres como líderes espirituais.

Réplica: Esse argumento parece confundir dons espirituais (I Co 12) com funções eclesiásticas (I Tm 3), o papel do profeta na Bíblia (ou no ministério de Ellen White) nunca foi estar na liderança do povo, essa não é a prescrição da função de um profeta. Os profetas eram responsáveis por trazer mensagens de Deus, muitas vezes Ele usou não crentes para profetizar.  Deus usou pessoas como Balaão (Nm 22:35) e o problemático Saul (I Samuel 10:10) para mandarem mensagens e profetizarem, mas isso não lhes dava autoridade para oficiar os cultos como sacerdotes ou líderes espirituais de Israel. O caso de Saul ter profetizado, por exemplo, apenas mostra a soberania de Deus de usar seus instrumentos.

No caso de Hulda, ela dava conselhos em sua casa (2Re 22.13-15), mas não nos é dito que ela tivesse qualquer autoridade sobre o povo (assim como Ellen White nunca oficiou nenhuma cerimônia religiosa, na verdade, houve vários casos em que ela se sujeitou à Conferência Geral). É tão verdade que os profetas não desempenham papel de liderança, que diversas vezes o povo de Deus não acatou seus conselhos, nem mesmos os líderes. Não podemos confundir a autoridade de um profeta com a autoridade de líderes diretos do povo.

Para mostrar que Ellen White não era submissa a seu esposo apenas em casa, como a sugestão do argumento 4 parece indicar para as pastoras e seus maridos, citarei um trecho do livro Ellen G. White The Person (pág. 20) escrito por seu neto, Arthur White:

Her understanding of the proper relationship between husband and wife stands out in a letter written to a friend in her early married life: “We 20 women must remember that God has placed us subject to the husband. He is the head and our judgment and views and reasonings must agree with his if possible. If not, the preference in God’s Word is given to the husband where it is not a matter of conscience. We must yield to the head.” 3° She would not stand in the pulpit to speak at the Sabbath morning worship service if James White was present. He would take the Sabbath morning service, and she would speak in the afternoon. Only when he was stricken with paralysis in 1865 and for some time could not take his place in public work did she depart from this procedure.

Coloquei na língua original para evitar qualquer alegação de distorção, Ellen White não “assumia o púlpito” se Tiago White estivesse presente. Mostrar que Deus usou mulheres para advertir o povo não prova que Deus as autoriza a exercer liderança por autoridade religiosa.

  • O fato de a mulher ser submissa ao marido não necessariamente implica uma visão normativa na Igreja ou fora do casamento, é perfeitamente cabível o homem ser submisso à sua mulher (pastora) na Igreja mas não o ser em casa (havendo uma troca).

Réplica: Bem, essa foi a principal crítica que ouvi de nossos leitores à primeira parte do artigo. Um exemplo dado, no entanto, chamou-me a atenção e ilustra com clareza alguma falta de coerência por trás desse comentário. Imaginemos agora um casal que é designado para um distrito. A mulher será a nova pastora e o homem lhe acompanhará no ministério. Segundo essa lógica, a solução oferecida é que o homem seja submisso à mulher quando ela exercer sua autoridade eclesiástica na Igreja, enquanto que em casa, ela seja submissa ao seu marido conforme a Bíblia orienta.

Meu questionamento é o seguinte: quando os dois estiverem tratando de assuntos da Igreja, então a submissão da mulher é anulada e transferida ao homem? Há apoio bíblico para essa troca? Por acaso teria Deus escolhido um jeito para que a casa funcionasse diferente da Igreja?

Vejamos que Ellen White dá várias indicações de que a Igreja funciona com o mesmo princípio da Família, assim como no passado a liderança espiritual da Igreja e da casa era patriarcal.  Alguns textos esclarecedores:

“Se os pais e as mães são fiéis cristãos em família, serão membros prestimosos da igreja e aí capazes de conduzir as atividades bem como na sociedade, segundo a maneira em que conduzem o que concerne à família. Pais, não permitais que vossa religião seja simplesmente uma profissão, mas sim uma realidade.” — Manuscrito 53. (Destaque meu)

“No lar é posto o fundamento da prosperidade da igreja. As influências que regem a vida no lar são levadas para a vida da igreja; portanto os deveres eclesiásticos devem começar no lar.” — The Signs of the Times, 1 de Setembro de 1898 (Destaque meu)

Samuele Bacchiocchi foi muito feliz ao comentar em seu livro Women in Church sobre I Co 11 nesse quesito. Em sua obra, ele fornece boas evidências exegéticas para se somar ao sentido de “marido” e “esposa” dessa passagem uma inclusão de gêneros, isto é, possivelmente o texto se refere a homens e mulheres não apenas no contexto do casamento. Peço que você leia essa passagem na íntegra para entender algumas considerações.

Versículos essenciais de I Coríntios 11:

Verso 3: Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo
Verso 4: Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça.
Verso 5: Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada.
Verso 12: Porque, como a mulher provém do homem, assim também o homem provém da mulher, mas tudo vem de Deus.

Bacchiocchi informa que aner e gune podem ser traduzidos tanto como marido e esposa como homem e mulher (algo similar ao que temos em português ao entendermos que a “mulher de alguém” é, na verdade, sua esposa).
Nesse raciocínio, ele prossegue:

A qualificação da palavra pas, “cada” (ou todo) sugere que a decisão sobre coberturas de cabeça aplica-se a todos os homens e mulheres e não apenas para maridos e esposas. Algumas das outras razões para esta interpretação inclusiva são convincentemente dadas por Ralph Alexander: “Os versículos 7-11 tratam da criação como uma base para as normas dadas. Isto, por sua vez, tende a enfatizar homens e as mulheres em geral, em vez de apenas a maridos e esposas. Os versículos 11-12 falam da interdependência mútua entre os sexos no processo de procriação. Como marido e esposa já existem, esses versos restritos ao casamento ficariam ilógicos, posto que o marido não se originou da esposa nem a mulher é fonte de seu marido . Os versículos 13-16 argumentam baseados na natureza, o que daria maior apoio que o sentido homem/mulher, em geral, está sendo discutido, ao invés de apenas maridos e esposas. (Women in Church pág 115).

Resumindo os comentários de Bacchiocchi, não faz sentido restringir os comentários de Paulo a esposa e esposo se ele, ao argumentar, falou que o homem provém da mulher (alusão ao nascimento) assim como a mulher vem/veio do homem (tanto no sentido criativo de como Eva foi formada como na participação do homem na origem de uma criança). O conjunto dos versos parece indicar uma aplicação universal e não restrita ao casamento, seria estranho, analisando todo o contexto da passagem, proibir apenas os homens casados de cobrirem suas cabeças (verso 4) e impor apenas às mulheres casadas o uso do véu (verso 5). A aplicação do princípio de submissão foi tratada não só no contexto do casamento, isso é no mínimo interessante.

Em outros tópicos discutiremos mais o assunto.

  • O fato de Ester e Débora terem desempenhado papel de liderança é uma forte evidência de que podemos ordenar mulheres a cargos de liderança eclesiástica.

Réplica: O caso de Ester (e quando pensamos em Débora como juíza), é uma situação de relevância civil, não de cunho diretamente religioso. Ester não tinha autoridade alguma sobre a vida dos judeus, tanto que em sua missão ela foi clamar a Assuero, não ordenar ou impor. Sua missão nada teve que ver com ordenação ou liderança espiritual, mas sim por salvar o seu povo através de seu esposo.

O caso de Débora é registrado quando o sacerdócio estava irregular, no entanto sabemos que a utilidade dessa serva de Deus não teve prescrição de autoridade eclesiástica como sacerdotisa, mas sim de exercer “juízos” (Jz 4:4). Ver Comentário Bíblico Adventista Vol 2 Pág. 307 sobre a função de um Juiz.

O episódio em que Débora diz a Baraque que Deus o chamou para lutar mostra, na verdade, um quadro quase que oposto ao que o argumento citado pretendeu indicar. Ainda que Deus tivesse à Sua disposição Débora, Ele comunica Baraque para assumir a liderança. Este falho homem temeu o conflito, mas mesmo assim Deus preferiu contar com ele (um homem) para tal função, Débora mesma reconheceu que a presença dela na batalha seria motivo de vergonha para Baraque posto que ele não levaria as glórias da vitória (Jz 4:9).

Para mais informações, deixarei um link de um estudo do pastor Stephen Bohr no qual ele analisa exaustivamente o caso de Débora e de Hulda. Um detalhe que me chamou atenção e que é digno de nota aqui, são as considerações de Bohr sobre esse episódio de Débora e Baraque; para ele, é relevante o fato de que a Bíblia considera Baraque como protagonista da batalha, não Débora. Ainda que a profetisa tenha sido extremamente importante na história de Israel, apenas Baraque é citado em I Sm 12:11 como tendo sido enviado contra os inimigos do povo, assim como também ele recebeu espaço na galeria dos heróis da fé em Hebreus 11:32, não Débora.

Ainda que o caso de Débora tivesse qualquer relação com o pastorado feminino, usá-la como prova seria tentar transformar uma exceção em regra. Fazer esse tipo de interpretação, no entanto, seria forçar o texto bíblico.

O mesmo pode-se dizer sobre Priscila e Febe (Rm 16:1-3), nada na Bíblia indica que elas exerciam autoridade eclesiástica, que batizassem ou que eram ordenadas a representarem a igreja espiritualmente em cargos de liderança. É-nos dito que elas ajudavam Paulo, não era preciso serem ordenadas apostolizas, pastoras ou episcopisas para ajudarem um servo de Deus.

Confira: http://www.secretsunsealed.org/wp-content/uploads/2014/06/newsletter3Q13web.pdf

Essas foram as réplicas aos argumentos diretos a favor da ordenação, mas também pediram para comentar sobre a argumentação do pastor Ty Gibson e alguns textos de Ellen White, por isso abordaremos rapidamente sobre esses dois assuntos adicionais.

Li parte das publicações dele e quero comentar por que discordo de sua argumentação. Ao comentar I Timóteo 2, o pastor Ty Gibson se valeu das seguintes premissas e conclusão:

  1. Paulo prescreve que bispos/ pastores e diáconos fossem maridos de uma mulher só;
  2. Na Bíblia encontramos Febe, uma mulher, (Romanos 16) como diaconisa;
  3. Logo, não há problemas em permitir pastoras se elas igualmente forem monogâmicas.

Apesar de ele não ter escrito exatamente assim, foram essas as impressões que tive de seu discurso. Ele se concentrou em dizer que a restrição diz respeito à monogamia e não ao gênero, e, para tanto, citou o caso de Febe.

Para fundamentar suas premissas, Gibson também recorreu à citação de I Timóteo 2:8 em que Paulo pede para os homens levantarem as mãos ao orarem, para ele isso é um indicativo de limite circunstancial, isto é, uma prova de que esse livro tem detalhes meramente culturais e não universalmente aplicáveis.

O pastor Gibson tem muitos mais comentários sobre o assunto, vou me deter nesses posto que mais colidem com a parte I de meu artigo.

Bem, preciso dizer que, de um ponto de vista estritamente lógico, a conclusão dele não segue necessariamente as premissas que ele elencou. Por quê? A única conclusão a que ele poderia ter chegado era de que a Bíblia dá apoio à ordenação de diaconisas, mas não de pastoras. Nada do levantamento exegético dele evidencia apoio bíblico à conclusão que ele acha razoável. Existir uma diaconisa não prova a legalidade da ordenação de uma pastora, são ofícios diferentes e de abordagens bíblicas textuais diferentes.

Quanto à citação de Febe, evocarei aqui um comentário do teólogo Augustus Nicodemus que creio sumarizar bastante o assunto quando à figura dessa personagem:

“(1) Não é claro se Febe era realmente uma diaconisa. Muito embora no original grego Paulo empregue o termo ‘diácono’ para se referir a ela, lembremos que este termo no Novo Testamento nem sempre significa o ofício de diácono. Pode ser traduzido como servo, ministro, etc. Portanto, nossa tradução ‘Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia’ é perfeitamente possível e não é uma tradução preconceituosa.

(2) Mesmo que houvesse diaconisas na Igreja apostólica, é certo que elas não exerceriam qualquer autoridade sobre as igrejas e sobre os homens – a presidência era dos presbíteros, cf. 1Tm 5.17; o trabalho delas seria provavelmente com outras mulheres (Tt 2.3-4) e relacionado com assistência aos pobres. É interessante que a primeira referência que existe na história da Igreja sobre o trabalho de mulheres, diz assim: ‘A mulher deve servir às mulheres’ (Didascalia Apostolorum). Isto queria dizer que elas instruíam as outras que iam se batizar, ajudavam no enterro de mulheres, cuidavam das pobres e doentes. Não há qualquer indício de que tais mulheres eram ordenadas para o exercício da autoridade eclesiástica.” Extraído de http://tempora-mores.blogspot.com.br/2014/01/respostas-argumentos-usados-em-favor-da.html

No que diz respeito ao comentário de orar levantando “mãos santas”, encontrado em I Timóteo 2 também, temo em dizer que esse tipo de comentário soa como reductio ad absurdum [do latim: reduzido ao absurdo], ou seja, reduzir algo ao absurdo (para talvez menosprezá-lo).

Eu não creio que esse tipo de argumentação seja saudável, se compararmos essa situação com a guarda do sábado, veremos que este assunto igualmente tinha aplicações culturais/circunstanciais (como não acender fogo no sétimo dia) e nem por isso podemos desprezá-lo. Não deixamos de guardar o sábado porque havia restrições culturais a respeito dele, isso seria menosprezá-lo ao olhar um pequeno ponto dele, considerá-lo um absurdo e portanto desprezá-lo.

Devo lembrar também que o Comentário Bíblico Adventista considera “mãos santas” como “símbolo de caráter isento de corrupção moral” (Vol 7 pág. 302), não necessariamente uma prescrição universal posto que também poderia se tratar de um desejo (do gr. Boulomai) de Paulo como se indica no início do verso 8.

Quanto aos textos de Ellen White, vejamos se ela algo que apoiasse a ordenação de pastoras.

Os que entram para o campo missionário devem ser homens e mulheres que andam e falam com Deus. Os que ocupam o púlpito sagrado como pastores devem ser homens de uma reputação excelente; sua vida deve ser íntegra, superior a tudo que tenha o menor traço de impureza. Não arrisqueis vossa reputação, aventurando-vos no caminho da tentação. TS2 pág. 239 (Destaque meu)

Note que ela diferencia em períodos diferentes “homens e mulheres” para o campo missionário (para onde realmente todos são chamados) e “homens de reputação excelente” para serem pastores que ocupam o púlpito. Argumentar que essa passagem tem falta de clareza seria fugir ao bom senso.

“O objetivo primordial de nosso colégio era permitir aos moços uma oportunidade de estudar para o ministério e preparar jovens de ambos os sexos para se tornarem obreiros nos diferentes ramos da causa. Esses estudantes precisavam do conhecimento dos aspectos comuns da educação e, acima de tudo, do conhecimento da Palavra de Deus.” T5 pág 60 (Destaque meu)

Novamente Ellen White diferencia o chamado de obreiros para “ambos os sexos” e a permissão de moços (“young men” em inglês) para o ministério. É possível extrair dessa citação uma interpretação que permita ordenação de pastoras? Responda sinceramente.

A ordem que foi mantida na primitiva igreja cristã, possibilitou-lhes avançarem firmemente como bem disciplinado exército, vestido com a armadura de Deus. Os grupos de crentes, se bem que espalhados em um grande território, eram todos membros de um só corpo; todos se moviam com ordem e em harmonia uns com os outros. Ele requer que o método e a ordem sejam observados na administração dos negócios da igreja hoje, não menos do que o foram nos antigos tempos. Deseja que Sua obra seja levada avante com proficiência e exatidão, de modo que possa pôr sobre ela o selo de Sua aprovação. AA pág.65 (Destaque meu)

Gostaria muito de saber como quem apoia a ordenação feminina interpreta esse texto, Ellen White está dizendo que Deus continua exigindo o mesmo método do antigo testamento quando passou o capítulo todo discutindo a escolha da liderança de apoio a Moisés e da ordem de Jetro. Como conciliar esse texto com a prática da ordenação de pastoras?

Há um último texto que gostaria de citar que merece uma atenção especial, muitos veem nele uma assertiva de Ellen White em favor do ministério de pastoras:

“Todos os que desejem uma oportunidade para o verdadeiro ministério e que se dêem sem reservas a Deus, encontrarão na colportagem ocasiões de falar sobre muitas coisas pertencentes à futura vida imortal. A experiência assim ganha, será de grandíssimo valor para os que se estão preparando para o ministério. É a assistência do Espírito Santo de Deus que prepara os obreiros, homens e mulheres, para se tornarem pastores do rebanho de Deus.” T6 pág 322

Uma leitura prévia e sincera desse capítulo, mostrará que Ellen White está tratando sobre a obra de colportagem, e não permitindo homens e mulheres para serem ordenados ao pastorado igualmente. Para fundamentar essa conclusão, é de extrema relevância citar que em inglês a palavra usada é “pastor”, como recurso metafórico ao pastor que ama seu rebanho. Alguns parágrafos seguintes, Ellen White declara:

“Men suited to this work undertake it; but some injudicious minister flatters them that their gifts should be employed in preaching instead of in the work of the colporteur.” T6 pág. 323

A palavra “minister” é igualmente traduzida como “pastor” em português, veja:

“Homens que se adaptam a esta obra, empreenderam-na; mas alguns pastores insensatos lisonjeiam-nos dizendo que seus dons deveriam ser usados em pregar, em vez de no trabalho da colportagem.” T6 pág. 323

Nessa passagem, ela faz diferença da prévia obra de colportagem (de pessoas que atuariam também como “pastores”-metaforicamente- do rebanho) desses “ministers” (oficialmente pastores) que eram ordenados ao ministério. Stephen Bohr explica:

“O fato é que tecnicamente, segundo o Novo Testamento, ser pastor é um dom espiritual. Mas nós usamos o termo diferentemente hoje, no sentido de ministro, nós mudamos o sentido da palavra como a usamos hoje. Então aqui ela diz que tanto homens quanto mulheres deveriam ser pastores porque a palavra pastor vem de pastor de ovelhas (‘shepherd’). Em espanhol só existe uma palavra, ‘pastor’.” (Citação de matéria da 3ABN).

Logo, não há como usar esse texto para fundamentar um argumento sólido a favor da ordenação de pastoras; se assim o interpretarmos, como vimos, teremos problemas com outras declarações de Ellen White e com seu idioma de trabalho, o inglês.

Agradeço sua atenção e disposição de ter lido esse assunto tão importante.

Por Matheus Fugita

  • Wellington
  • Emanuel Telles

    A etimologia da palavra “pastor” traduz as incertezas até aqui abordadas. Pois oriunda do latim que quer dizer “o que guia ovelhas”, por extensão “o que guia almas” revela-nos argumentos basilares para ordenação de mulheres para o desenvolvimento de funções eclesiásticas, a própria formação da mulher designa isso: “Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja “idônea”, tal idoneidade possibilitaria o desempenho de funções em apoio a igreja de Cristo, uma vez que na nova vida não haverá dicotomia de sexo, seremos todos como os anjos (ver Mt 22:30). Ainda em coesão as afirmações subscritas anteriormente, verificamos Gn 29:9 para compreender as funções desempenhadas por uma mulher que agradou a Yhwh, desse modo imagine você por quatro anos estudar uma graduação em qualquer área do conhecimento, posteriormente não desempenhá-las pelo fato de ter nascido mulher, sendo que o desenvolvimento das atividades culturalmente pertence aos homens. Contudo, defendo a opção de escolha direcionada pelas Uniões Adventistas como vem sendo proposto, uma vez que a organizada comunidade mundial de Adventistas do 7º dia saberão sobre quem repousa o Espírito de Deus para desempenhar o ministério pastoral. Shalom!

    • matheusfugita

      Olá Emanuel, bem vindo à conversa! Deixarei alguns pontos para você pensar:
      Na nova Terra não haverá morte, mas ainda morremos; na Nova Terra não haverá dores, mas ainda sofremos; na Nova Terra teremos uma outra vida, mas nós já chegamos lá? Não, ainda não estamos na Nova Terra, mas ainda que estivéssemos, gostaria de saber qual texto da Bíblia nos diz que os anjos são unisex? Analise esse trecho do Centro White que cita a obra de Bacchiocchi e Domingos:

      “Mesmo entre os adventistas do sétimo dia têm surgido pessoas que apresentam pontos de vista diferentes da interpretação tradicional a respeito da vida pós-ressurreição. Como exemplo menciona-se Samuele Bacchiocchi. Em sua obra The Marriage Covenant, ele diz que não haverá casamentos na vida pós-ressurreição para promoverem a procriação, mas que o relacionamento íntimo entre marido e mulher continuará.32Nesta mesma obra, ele apresenta uma interpretação peculiar sobre o fato de nalgumas narrativas bíblicas anjos aparecerem formando duplas: A referência de Jesus a sermos “como os anjos” (Mat. 22:30) na ressurreição não implica necessariamente na cessação da função relacional do casamento. Em nenhum lugar as Escrituras sugerem que os anjos são seres “unissex”, incapazes de se envolverem em relacionamentos íntimos similares aos do matrimônio humano. O fato de os anjos serem mencionados com frequência na Bíblia em pares (Gen. 19:1; Ex 25:18; 1Rs 6:23) sugere que eles podem desfrutar relacionamentos íntimos como casais.33

      Outro exemplo de interpretação adventista heterodoxa é a publicação independente intitulada “Não é Bom que o Homem Esteja Só”, assinada por Venícius Domingos. A publicação defende a teoria de que haverá casamento e procriação na nova terra. O autor utiliza tanto a Bíblia quanto os escritos de Ellen G. White na tentativa de substanciar seus argumentos a respeito do assunto. A seguir, apresenta-se uma síntese do próprio autor:

      1) Jesus virá para restaurar todas as coisas que com tanto amor criou e abençoou; 2) Nada do que fez se perderá; 3) Sua criação é sábia e perfeita, não havendo nada objetável; 4) O sexo, assim como as demais funções do organismo, funcionará normalmente em todos os sentidos; 5) O que o pecado deturpou será recuperado em todos os detalhes; 6) Homens, mulheres e crianças salvas ressuscitarão na primeira ressurreição e, a seguir, homens, mulheres e crianças salvas serão transformados e levados; 7) Todos serão machos e fêmeas, conforme aquilo que Ele fez na criação; 8) Suas três instituições – o matrimônio, o sábado e a alimentação – retornam ao seu lugar de origem e na forma e desígnio para os quais foram instituídos: o sábado para descanso e o matrimônio para a reprodução; 9) Todos viverão felizes, e habitarão a Terra em suas moradas; 10) A descendência dos salvos permanecerá morando neste planeta, mas tão logo ele fique lotado com o número de habitantes correspondentes por metro quadrado, metragem que o Senhor determinará, eles ou seus descendentes “livres de mortalidade, alçarão vôo incansável para os mundos distantes” (GC 683) – e lá aprenderão da sabedoria de Deus e por lá permanecerão com suas famílias, podendo voltar ao Planeta Terra quando quiserem para visitar seus parentes e adorar no Templo de Deus (Is 66:23); 11) Deus não criou este planeta para que se tornasse um presídio para a raça; 12) Não seremos robotizados, assexuados, androidizados como afirmam certos descrentes do plano inicial de Deus. Seremos, juntos e com Cristo, seres humanos por toda a eternidade – macho e fêmea como nos criou (Gn 5:1, 2). E viveremos para sempre felizes no Novo Éden.34”

      Sei que esse não é o assunto em questão e que há inúmeros argumentos sobre o pensamento de que haverá (ou não) casamento no Céu, o que quero destacar, no entanto, é que essa discussão é irrelevante para os termos de sermos contra ou a favor da ordenação de pastoras. O que acontecerá no Céu (se teremos ou não gêneros diferentes) nos foi velado, mas temos base bíblica suficiente para entendermos como nos portar enquanto ainda estamos aqui. Se Deus dotou homem e mulher de funções e atribuições diferentes (regidos num mesmo status de amor), ao me ver, isso nada tem que ver com a realidade dos anjos ou do futuro em que viveremos. Veja a parte I do meu artigo para ver que existem boas razões para sermos contra a ordenação feminina.

      Quanto a frustração de elas estudarem 4 anos para não poderem atuar como pastoras isso é um argumento apenas emocional, os anos de preparo delas nada influenciam na visão que temos da Bíblia, elas podem muito bem usar sua erudição na obra de Deus sem necessariamente serem ordenadas ao ministério pastoral. Eu mesmo já pensei em cursar teologia mas sem querer exercer a função de pastor, conhecimento das coisas de Yhwh sempre é bom. Abraços!

      • Emanuel Telles

        Este dialogo me é rico para aquisição de conhecimento, para assim formar um pensamento interdisciplinar em assuntos contemporâneos como o de atribuir encargos ministeriais as mulheres. Penso que outrora eramos religiosos demais, deixávamos de amar por tentar agir consoante a religiosidade. Porém irmão deixo para trás os argumentos anteriormente levantados sobre a sexualidade dos anjos, no entanto algo Jesus Deixa explícito em Mt 22:30 (nem casam, nem se dão em casamento), então se perde a ideia que temos do matrimônio, ou seja a perda da funcionalidade do sexo (Deixemos essa descoberta para a Nova Vida). Quanto a refutação do argumento direcionando-o para emocional, não seria um tanto controverso? Uma vez que a igreja fomenta a inserção de mulheres no curso de teologia. Então há inúmeras questões subentendidas sobre o questionamento em curso. Contudo pautando-me apenas no que é relevante para fins de definir um posicionamento coeso ao que creio: Ambos estamos corretos, você ao negligenciar as funções eclesiásticas das mulheres, uma vez que Jesus chamou doze homens para auxiliá-lo em seu ministério, e eu por acreditar que mulheres podem exercer o ministério pastoral com exito. A irmã White sim escreveu vagas orientações que lhe embasam a respeito, porém tenho-na por uma exceção, pois realizando uma investigação de suas atribuições na popularização da Igreja Adventista percebe-se sua influência pastoral. Deixo-lhe também uma excelente teoria: “A filosofia da negação afiança: aquilo que mais negamos, é o que mais queremos que seja provado”. Em suma: “Não passamos de dialéticos”! Para reflexão: O que nos aproxima de Deus? Abraços fraternos querido amigo.

        • matheusfugita

          Irmão, percebo que você tem um excelente grau de erudição e sinceridade nos seus comentários, são virtudes admiráveis. No entanto, em alguns pontos ainda não entendi ao certo qual foi o ponto que quiseste enunciar. Por exemplo, nós não podemos responder pelos atos da Igreja, se eles incentivam mulheres ao curso de teologia, não posso dizer quais são suas pretensões nisso, minha opinião sobre a ordenação independe das atitudes de nossas Universidades. Continuo achando que é bom termos mulheres no curso de teologia para termos uma renovação da massa intelectual da Igreja que pesquisa, instiga e melhora nossa exposição da palavra de Deus. O curso de teologia não se afunila unicamente no serviço pastoral, ele abre portas para várias alas missionárias e continua sendo uma fonte instrutiva acadêmica para todos os que querem se aprofundar no estudo teológico (sem necessariamente serem pastores). Como eu disse antes, penso um dia, se Deus permitir, fazer teologia apenas para ajudar no meu contato com a Palavra de Deus, sendo a ideia de ser pastor bem remota. Por fim, as mulheres não são obrigadas a fazer teologia, ninguém as obriga a fazer parte do curso, elas estão lá porque querem e sabem que podem atuar em muitas áreas (sem ser no ministério pastoral). Limitar as opções (ou até mesmo a realização profissional) à obra de “pastora” parece-me uma visão bem reducionista de quem por acaso se sente limitado no curso de teologia. No mais, agradeço seus comentários! Sinta-se bem vindo para conversarmos sob a Luz da Palavra de Deus e guiados pelo Espírito!

      • Apóstata Polêmico

        olha, vou falar uma coisa pra vocês:

  • Fausto

    Por favor, onde a Bíblia proibe a ordenação de mulheres?

    • giovannabonilha

      A questão não é proíbir caro irmão. Pq senão onde a Bíblia proíbe fumar?

      • Apóstata Polêmico

        E não proíbe? Quem proíbe?