Cisternas rotas

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Filament.io 0 Flares ×

Leitura biblia

No Amazonas, há uma palavra que só de ser mencionada traz riso aos ouvintes, chama-se: gambiarra. Com certeza em outros lugares também devem usá-la com o mesmo sentido que os amazonenses, mas pelo menos em Manaus ela é bem frequente.

A gambiarra trata-se de um artifício, engenhoca ou técnica incomum que substitui um objeto específico em uma situação de emergência. Em geral, o importante não é se a gambiarra tem uma estética boa, e sim se ela funciona. Você consegue pensar em exemplos de gambiarras?

No Brasil, o famoso “gato” de fiação elétrica é uma gambiarra; consertar tudo com fita adesiva pode ser uma gambiarra; e, por fim, resolver uma prova de cálculo só com regra de três é uma gambiarra bem comum entre estudantes (rsrs).

No período do profeta Jeremias, o próprio Deus acusou o povo de cometer uma gambiarra histórica:

Espantai-vos disto, ó céus, e horrorizai-vos! Ficai verdadeiramente desolados, diz o Senhor.
Porque o meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm águas.
Jeremias 2:12,13

Além de terem abandonado ao Senhor (considerado o “manancial de águas vivas”), eles cavaram “cisternas rotas”. Em um tempo de inconstância militar como no período pós-reino unificado (pouco depois da morte de Salomão), era costume o povo cavar em estruturas rochosas cavidades que pudessem reter a água da chuva para que tanto soldados como cidadãos não viessem a passar sede. Construir uma cisterna rota seria construir uma cisterna porosa, com furos, rachaduras e imperfeições de maneira que não conseguiria acumular água mantendo-a pura.

Assim sendo, Deus usa como ilustração esta cena: Ele sendo o manancial, oásis esquecido e abandonado por Seu povo, enquanto este procura fazer uma artimanha para sobreviver ao período de seca longe da fonte de água. Ou seja, Deus usa uma cena de gambiarra.

Estudamos isso na lição de terça-feira em “Dois males”, tema que me chamou atenção. É interessante notar que a dona Ellen White se vale da mesma ilustração para falar sobre a educação adventista no livro Educação, página 84. Além dessa referência, há até mesmo um livro adventista chamado “Mananciais vivos ou cisternas rotas?” de E.A.Sutherland tratando sobre problemas na educação, livro esse talvez assim intitulado porque nós não podemos instruir nossa geração com gambiarras espirituais. Tenho a leve impressão que o jeitinho brasileiro não vai ser lá o melhor argumento no dia do Juízo.

Quem teve a curiosidade de ler o trecho “O aluno deverá saber” desta semana, deparou-se com um desafio interessante no subitem “Conhecer”: “A história de Israel desde o êxodo até o tempo de Jeremias (cerca de 800 anos) e identificar o tema comum da crescente apostasia do povo de Deus.” Pessoalmente, eu posso talvez não conhecer profundamente esses 800 anos de história, mas a lição dessa semana ajudou a nos mostrar alguns detalhes bem interessantes sobre a história judaica e que tem tudo a ver com educação.

Um fato a ser relembrado é que o povo de Israel (inclusive Israel espiritual hoje também) colocou pessoas como muletas espirituais. Recordam-se de Moisés? Antes de subir no monte: povo quieto, depois na volta: festa do bezerro de ouro. Com Josué não foi muito diferente, depois de sua morte Deus precisou instituir Juízes para trazer a paz de volta ao arraial.

No livro de Juízes 2:10 é-nos dito que se levantou uma geração no povo de Deus “que não conhecia o Senhor” depois da morte de Josué. Ora, o que não seria isso senão uma soma de gambiarras espirituais? A falta de compromisso espiritual dos pais fez com que o povo de Deus perdesse sua identidade, ao ponto que as gerações que deveriam fortalecer seus genes espirituais, na verdade, passaram adiante uma genética sem pulso e conhecimento divino. Será que isso não está se repetindo?

Não quero dizer aqui que não podemos ter referências espirituais, ter um Moisés, Josué ou Paulo do lado com certeza nos ajuda, mas se sem eles nós não somos firmes em nossas decisões cristãs, fazemos pelos menos uma destas três coisas: (1) estamos obedecendo apenas por medo, (2) estamos valorizando mais a visão dos homens do que a vista de Deus (o que acaba sendo uma espécie de idolatria) ou (3) estamos desmerecendo Deus pelo fato de que Ele mesmo estando sempre ao nosso lado (com ou sem Josué), parece que não nos faz muita diferença.

Deus está vendo tudo, Ele não precisa de um homem para estar em nossa vida, precisamos urgentemente nos livrar dessas muletas espirituais. Nesse sentido, pessoas foram feitas para nos ajudar na caminhada espiritual, não para servirem de gambiarras!

Será que o exemplo do povo que surgiu sem conhecer ao Senhor após a morte de Josué, o problema com a geração de Jeremias e a repetição do alerta sobre educação dada por Ellen White não vão nos fazer repensar em nossa vida espiritual? Está na hora de fazer o certo porque é certo, nossa cultura, gostos, sonhos, tradições e conhecimento não valem mais que a Palavra de Deus. Esse amontoado junto pode até parecer bonitinho, mas ele cria a pior das gambiarras que existe: um coração dividido, e isso Deus não aceita. Será que já nos entregamos inteiramente?

“O Princípio da Presença de Deus (Salmo 139:2-12) é tanto confortador quanto preocupante. Ellen G. White escreve: ‘Se acalentássemos uma impressão habitual de que Deus ouve e vê tudo o que fazemos, e conserva um registro fiel de nossas palavras e ações e de que devemos deparar tudo isso, teríamos receio de pecar. Lembrem-se sempre os jovens de que onde quer que estejam, e o que quer que façam, acham-se na presença de Deus. Parte alguma de nossa conduta escapa a Sua observação[…] A mais escura meia noite não é uma cobertura para o criminoso. Ele pode julgar-se só, mas para cada ação há uma testemunha invisível’ (PP 217,218)

A presença de Deus, no entanto, não é opressiva nem intimidante. Seu objetivo não é punir , condenar ou destruir. Davi sentiu a mão onipresente de Deus liderando-o e amparando-o (Sl 139:10)…” Tratado de Teologia Adventista, página 787.

 

Por Matheus Fugita

.