A Pressa é Inimiga da Conversão

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Um fato contemporâneo amplamente divulgado em diversas redes sociais de adventistas, é que vemos cada vez mais pastores, missionários, obreiros, evangelistas, entre outros do gênero, disputarem praticamente no tapa o batismo de pessoas para as suas respectivas igrejas. Alguns postam ‘selfies’ mostrando auditórios lotados de “ovelhas que voltaram ao redil”, outros postam vídeos desses mesmos fiéis, falando em uníssono, que “são de Jesus”, e ninguém tasca. Recentemente, testemunhei alguns pastores, cantores “oficiais” da igreja (seja lá o que isso for) comemorarem mais de 40 batismos em determinada localidade. “Aham, Cláudia. Senta lá…”. Vamos com calma.

A euforia quando se tem uma quantidade de batismos pode ser justificada por vários fatores: alcance de metas, felicidade genuína de quem conseguiu mais uma “estrelinha para a sua coroa”. Não posso julgar o coração de quem está envolvido neste tipo de atividade. Mas Deus nos concedeu discernimento para analisar e saber os rumos que nossa igreja está trilhando.

De acordo com o último relatório da Conferência Geral de 2015, em San Antonio, nos EUA, há a exposição de fatos deveras preocupantes. Vou transpor na íntegra a porção do relatório:

“O resultado do abrangente processo de auditorias ao longo dos últimos cinco anos foi um total de 2.983.905 membros que deixaram a igreja ou foram registrados como desaparecidos; 261.888 mortes foram registradas; e um total de 5.563.377 foram acrescentados mediante o batismo ou a profissão de fé. O número de mortes relatadas cresceu um pouco, mas permaneceu relativamente estável, ao passo que o total de desaparecidos e afastados aumentou drasticamente.

A magnitude das perdas (desaparecidos e afastados) identificadas nas auditorias mina o número considerável de acréscimos. O número gigantesco de membros que sai pela metafórica porta dos fundos mina o crescimento que chega pela porta da frente. A melhoria na conservação dos membros é vital.” O real tamanho da igreja. Revista Adventista, edição digital, Revista Adventista, 07 de Julho de 2015.

Se eu analisar friamente os membros que deixaram nossas fileiras como “apóstatas”, temos praticamente 53,63% de saída de membros, comparados com o número de pessoas que foram batizadas. Ou seja, praticamente na mesma velocidade que temos batizado pessoas, outras (ou as mesmas) pessoas acabam por deixar a fé pela porta dos fundos. Por que isso acontece?

Imaginem a seguinte hipótese (real): existe uma pessoa para qual a Bíblia é ensinada. Esta pessoa é bastante sincera e ávida em aprender a palavra de Deus. Contudo, após algumas parcas visitas, certa vez, flagra-se o primeiro ancião de uma igreja adventista próxima, em sua residência, onde o mesmo estava já preenchendo a sua ficha batismal! As pessoas que estavam dando o estudo ficaram atônitas. Quando aquelas perguntas terminaram, e o primeiro ancião saiu, foram feitas apenas duas perguntas para o rapaz: “você tem certeza daquilo que acabou de responder?”, no que ele disse que “achava que sim”. Foi perguntado também algo óbvio, pois não se tinha apresentado a ele o histórico da

IASD: “você tem noção do ministério profético de Ellen White em nossa igreja?” Ele respondeu, agora de forma assustada: “Ellen quem?” As pessoas estão se batizando sem saber onde estão se metendo!

Vamos lá. Dois anos atrás, foi divulgado o resultado de uma outra pesquisa reveladora para delegados do Concílio Anual da Associação Geral de 2013, na sede da Igreja em Silver Spring, Maryland, em estudo encomendado pelo Escritório de Arquivos, Estatística e Investigação da IASD.

A pesquisa foi baseada em cinco projetos separados. Ela consistiu de 41.000 entrevistas ou questionários por todo o mundo; envolveu 4.260 pastores, quase 26 mil membros da Igreja; 1.200 estudantes universitários e recém-formados, e 900 ex-adventistas. Equipes de universidades adventistas estiveram envolvidas nesse esforço sem precedentes em vários conteúdos da pesquisa.

“Em termos de amplitude e profundidade”, disse David Trim, diretor do escritório de pesquisa da Igreja, “este é o melhor retrato que já tivemos da Igreja por todo o mundo”.

De 2000 a 2012, mais de 13,6 milhões de pessoas se uniram à Igreja, principalmente através do batismo. Mas, durante o mesmo tempo, 5,9 milhões de adventistas foram perdidos (o que não inclui os que morreram). Esse é um índice de perda de cerca de 43,4 por 100 novos convertidos. “Isso é muito alto”, disse Trim.

Essa frase ressoa em minha mente: “ISSO É MUITO ALTO!”.

O que me faz pensar que, talvez, a forma de evangelismo que estejamos fazendo não seja a mais adequada. Em quais termos? Em termos espirituais. Falo isso por mim: não sou eu quem convencerá o meu amigo a aceitar a Jesus! Esse papel é do Espírito Santo. A pergunta que eu tenho que me fazer é: eu estou me deixando ser usado? Estou eu preocupado apenas com a contabilização de “estrelinhas” na minha coroa? O que, depois desses dados estatísticos apresentados, podem mostrar que são estrelas que se apagam com o tempo.

Precisamos da plenitude do Espírito Santo em nossa vida, não para termos apenas batismos. O batismo é a expressão exterior de um desejo verdadeiro interior. Contudo, batizar sem saber no que se crê é o mesmo que mergulhar numa piscina, num desses ensolarados fins de semana. Sem nenhum traço de mudança verdadeira, a pessoa encontra rapidamente a porta da saída. Como disse o Pastor Emílio Abdala, via Twitter: “quem aceita a Jesus sob pressão, deixa Jesus na primeira pressão”. Precisamos que o Espírito Santo nos use como instrumentos de conversão. De transformação. As pessoas realmente sedentas deste mundo estão buscando um Deus que irá tirá-las do poço sem fim de escravidão do pecado, e dar-lhes-á vida nova. A Bíblia e os escritos de Ellen White nos revelam um fato maravilhoso, que reproduzo abaixo:

“Os líderes judeus tinham imaginado que a obra de Cristo terminaria com Sua morte; mas em vez disso, testemunharam as maravilhosas cenas do dia do Pentecostes. Ouviram os discípulos dotados de poder e energia até então desconhecidos pregando a Cristo e viram suas palavras confirmadas por sinais e maravilhas. Em Jerusalém, o centro do judaísmo, milhares declararam abertamente sua fé em Jesus de Nazaré como o Messias. Os discípulos estavam assombrados e sobremodo jubilosos com a abundante colheita de conversos. Eles não consideravam essa maravilhosa colheita como resultado de seus próprios esforços; sabiam que estavam somando ao trabalho de outros homens. Desde a queda de Adão, Cristo estivera confiando a servos escolhidos a semente de Sua Palavra, para ser lançada nos corações humanos. Durante Sua vida na Terra, Ele semeara a semente da verdade e a regara com Seu

sangue. As conversões ocorridas no dia do Pentecostes foram resultado dessa semeadura, a colheita da obra de Cristo, revelando o poder de Seus ensinos.

Apenas os argumentos dos apóstolos, conquanto convincentes e claros, não teriam removido o preconceito que resistira a tanta evidência. Mas o Espírito Santo com divino poder convenceu os corações pelos argumentos. As palavras dos apóstolos eram como afiadas setas do Todo-poderoso, convencendo as pessoas de sua terrível culpa por haverem rejeitado e crucificado o Senhor da glória.

Sob a influência dos ensinos de Cristo, os discípulos tinham sido induzidos a sentir sua necessidade do Espírito. Mediante a instrução do Espírito receberam a habilitação final, saindo no desempenho de sua vocação. Não mais eram ignorantes e iletrados. Haviam deixado de ser um grupo de unidades independentes, ou elementos discordantes em conflito. Sua esperança não mais repousava sobre a grandeza terrestre. Todos eram “unânimes” (Atos 2:46) e “era um o coração e a alma da multidão dos que criam”. Atos 4:32. Cristo lhes enchia os pensamentos; e eles visavam ao avançamento de Seu reino. Na mente e no caráter, haviam-se tornado semelhantes a seu Mestre, e os homens “tinham conhecimento que eles haviam estado com Jesus”. Atos 4:13.

O Pentecostes trouxe-lhes uma iluminação celestial. As verdades que não puderam compreender enquanto Cristo estava com eles, eram agora reveladas. Com uma fé e certeza que nunca antes conheceram, aceitaram os ensinamentos da Sagrada Palavra. Não mais lhes era questão de fé, ser Cristo o Filho de Deus. Sabiam que, ainda que revestido da humanidade, Ele era, de fato, o Messias, e contaram sua experiência ao mundo com uma confiança que inspirava a convicção de que Deus estava com eles.” Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, Capítulo 4, Página 24.

A Bíblia não diz em seu registro que as milhares de pessoas CONVERTIDAS saíram da igreja primitiva. Muito menos os escritos de Ellen White. Quem se converte, ou seja, quem é transformado, não está isento de pecar, mas não vive mais o costume do pecado. É liberto verdadeiramente. Isto me fez refletir que estamos talvez com o foco errado. Nossa visão não deve ser preencher a igreja de membros novos a qualquer custo. Não deve ser postar fotos e mais fotos em redes sociais, comemorando centenas de batismos. Nosso foco deve ser a plenitude do Espírito Santo, individualmente. E não renderemos os frutos do Espírito se não O buscarmos diariamente, diligentemente, com oração e estudo consciente da Palavra de Deus. Se buscarmos e pedirmos, Deus nos concederá o dom do Espírito Santo. Ele irá nos transformar primeiro, em todos os aspectos de nossa vida, desde a alimentação até o modo de se expressar. Para que sejamos instrumentos verdadeiros de conversão de almas, e não meros “batizadores” de gente.

Não sou eu quem convence alguém do batismo, nem é uma decisão forçada! Deus não arromba portas. Ele apenas aguarda, batendo no lado de fora, esperando habitar em nossos corações. Como disse o irmão em Cristo Joêzer Mendonça, também via Twitter, “se pessoas são vistas como meta de batismo é por que há pastores de ovelhas que se tornaram apenas burocratas da salvação.” A história tem-nos mostrado que as motivações erradas, vaidade e pressa são inimigas da conversão.