Quando Ele muda de opinião

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Quem você procura quando quer um conselho? Talvez a resposta desta pergunta dependa da situação, no entanto, numa boa parte dos casos, nós buscamos conselhos de pessoas que concordam conosco. Não?

Infelizmente, o ser humano confunde um conselheiro com um confessionário. Ambos vão te ouvir, mas o bom conselheiro é aquele que não necessariamente vai concordar sempre com você, na verdade, o melhor conselheiro é aquele que não vai esconder a verdade mesmo que ela seja difícil de ouvir.

De que adianta buscar alguém que você já selecionou tendenciosamente? Seria apenas um exercício de desencargo de consciência para você pelo menos dizer “não sou só eu que penso assim! Uma pessoa me aconselhou a fazer isso!”. Ouvir essa pessoa nada mais é do que ouvir o eco dos seus próprios pensamentos, o que não necessariamente estará certo.

Já ouviu falar daquela história do policial bonzinho e do malvado? Um é aquele que coloca açúcar em tudo, gosta de você, não te assusta e tenta te convencer com calma. O policial malvado é aquele que sai chutando a porta, coloca as cartas na mesa e te diz a verdade.

Um profeta é uma mistura de bom conselheiro com policial “malvado”. Não estou falando aqui mal no sentido moral da semântica, mal nesse caso é no sentido de firmeza e convicção, claro. Obviamente haverá momentos em que Deus precisa conversar manso, suave e “falar à nossa mente como fala ao coração”, como diria um poeta adventista. Mas tem vezes em que Ele tem mensagens duras, diretas e urgentes. Nessas horas Ele chama um profeta, no seu modo policial malvado.

Na lição dessa semana, vimos mais uma vez Jeremias apelando ao povo, em especial no capítulo 26

“Dize-lhes pois: Assim diz o Senhor: Se não me derdes ouvidos para andardes na minha lei, que pus diante de vós,

Para que ouvísseis as palavras dos meus servos, os profetas, que eu vos envio, madrugando e enviando, mas não ouvistes;

Então farei que esta casa seja como Siló, e farei desta cidade uma maldição para todas as nações da terra.”

Jeremias 26:4-6

Você já imaginou alguém indo à Brasília e falar na sede do governo em transmissão nacional: “Gente, é o seguinte: ou para com esse negócio de idolatrar futebol, cerveja e carnaval ou Deus vai enviar os Estados Unidos para invadir e acabar com a festa.”?

Bem, grosso modo, era mais ou menos isso que tinha acontecido na época de Jeremias. E talvez a reação do povo na época fosse bem semelhante àquilo que o povo hoje também faria:

“E sucedeu que, acabando Jeremias de dizer tudo quanto o Senhor lhe havia ordenado que dissesse a todo o povo, pegaram nele os sacerdotes, e os profetas, e todo o povo, dizendo: Certamente morrerás”

Jeremias 26:8

Por que quiseram matar Jeremias? Porque só gostamos de ouvir conselhos de pessoas que concordem conosco. Pura ilusão. Eu diria que isso é até mesmo arrogância espiritual. No entanto, dessa trágica reação pelo menos duas lições são aproveitáveis.

A primeira delas é que Jeremias estava disposto a morrer pelo que acreditava. Ele simplesmente deixou sua vida nas mãos de Deus:

“ Quanto a mim, eis que estou nas vossas mãos; fazei de mim conforme o que for bom e reto aos vossos olhos.”(v.14)

O profeta não está preocupado se devido à mensagem vão querer fazer algo de mal contra ele. Parafraseando Ellen White, nada devemos temer quanto ao amanhã se não nos esquecermos de que estamos vivos hoje porque Deus nos guiou ontem. Jeremias não temeu, não vacilou nem titubeou. Será que por causa da escola, universidade, trabalho ou família você está sacrificando algum princípio de Deus? Jeremias estava disposto a morrer pelo que cria, talvez de lá Paulo se baseou para escrever: “Que nos separará do Amor de Cristo?”. Nem a morte, amigos.

A segunda lição é que Deus é tremendamente misericordioso, tanto que deu várias chances ao povo de ouvir o profeta. A Graça de Deus é abrangente e estrondosa ao ponto de dar ao arrependimento humano a chance de fazer Deus mudar de opinião.

Por favor, entenda a metáfora. Deus mudar (ou se “arrepender”) do julgamento que iria fazer é algo completamente compreensível pelo hebraico, e não uma falha de sua imutabilidade (basta estudar com calma Gn 6:6; Ex: 32:14; Nm 23:19; Jz 2:18 e Jl 2:13). Esse não é o arrependimento de quem se arrepende de fazer algo errado, é o arrependimento de mudança de sentença.

Na própria língua portuguesa, a palavra arrependimento pode expressar, também, compaixão ou contrição por algo que tenha acontecido. Isso não afeta a imutabilidade de Deus principalmente porque o próprio Deus deixou claro que a sentença seria mudada se houvesse arrependimento! Não é quebrar nenhum atributo divino se Ele mesmo está apenas cumprindo o que prometeu: quem se arrepender e mudar será salvo. Nesse aspecto, o arrependimento humano faz Deus mudar de opinião, sua sentença, o veredicto. Tudo se fez novo.

Eu particularmente gosto muito da palavra pertimento, do italiano. Ela tem a mesma origem da palavra portuguesa “arrependimento”, mas no italiano ela denota a ideia de um autor escrevendo o texto e que ao longo da obra faz anotações e alterações em determinadas partes como acabamento. Assim, quando o homem se arrepende e causa “arrependimento” em Deus também, eu imagino a cena: o Autor olha para aquele trecho, escrito pelo próprio homem, e numa coautoria com o ser humano, risca o que já foi feito e começa uma nova história.

Se o profeta está sendo duro com você para você começar uma nova história, não resista, ele apenas está sendo um bom conselheiro. É Deus falando com você por uma pessoa igualmente dependente da Graça, mas que se importa com sua salvação. Deus nos ilumine.