O Sábio bem o sábio ouve

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Gostaria de tratar de um texto que é muitas vezes mal interpretado e que, hoje em dia, tirado de seu contexto, tem servido de pretexto para todo tipo de hábito questionável, principalmente no que diz respeito às formas de entretenimento.

O verso é curto e bastante conhecido: “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Tess. 5:21).

O primeiro questionamento é: o que seria o “tudo” a que se refere o texto? A partir desse texto é possível concluir que o crente está autorizado a, por exemplo, ler livros espíritas ou daquele pastor famoso da televisão que tira o demônio, assistir a qualquer filme ou novela, estudar bulas papais, ler livros de magia etc., e depois disso, reter o que julga ser correto? Pode-se experimentar qualquer coisa, desde que ao final se retenha o que é o bem?

Em segundo lugar, o que é “o bem”, que deve ser o nosso objetivo? O bem de que trata o texto é subjetivo, de maneira que depende do julgamento do examinador, ou a Bíblia traz parâmetros objetivos que estabelecem a forma pelo qual se pode “examinar” a fim de encontrar “o bem”.

O primeiro questionamento se resolve facilmente pela leitura do contexto em que o verso se insere. O capítulo 5 de I Tessalonicenses, o qual consiste no contexto maior do verso, traz diversos conselhos e a divisão desse capítulo em versos faz parecer que o conselho de “examinai tudo” é mais um que se encerra no próprio verso. Entretanto, talvez a arbitrariedade na divisão do capítulo em versos separou especificamente este de seu contexto imediato, o qual, na verdade, se inicia nos dois versos anteriores. Portanto esse verso, a princípio, sempre deveria ser lido em conjunto ou se tendo em mente o que está em I Tessalonicenses 5:19 a 23, que diz:

Não extingais o Espírito.

Não desprezeis as profecias.

Examinai tudo. Retende o bem.

Visivelmente, o texto não trata das questões para qual a maioria das pessoas se utiliza desse verso, mas, pelo contrário, trata de um assunto muito específico, qual seja o dom de profecia. Possivelmente os crentes em Tessalônica estavam tendo problemas quanto ao uso e aceitação dos efeitos dos dons do Espírito, especificamente o dom de profecia.

Ellen G. White também contextualiza esses versos da mesma forma em Atos dos Apóstolos, na página 146:

O apóstolo advertiu os tessalonicenses a não desprezar o dom de profecia, e nas palavras, não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias; examinai tudo. Retende o bem, ele ordenou uma cuidadosa discriminação entre o falso e o verdadeiro.

Para evitar equívocos não se deve desacreditar toda e qualquer pessoa que diz ter o dom de profecia – ou qualquer outro dom do Espírito – , a fim de não rejeitar o Espírito Santo,  caso a manifestação seja verdadeira. Também, a fim de não se contaminar a congregação com heresias, não se deve simplesmente acatar a qualquer coisa que diga alguém simplesmente pela posição que ocupa na organização eclesiástica ou pelo simples fato de que afirma ter provindo do Espírito. Em lugar disso, Paulo aconselha a adoção de uma posição equilibrada: manter acesa a chama do Espírito Santo, ouvindo às possíveis manifestações do dom de profecia e submetendo todas elas, mesmo as mais verossímeis, à prova.

Interessante que esta é a mesma posição adotada por outro rabino importante que viveu alguns anos depois que estes livros foram escritos e cujas palavras estão registradas na secção do Talmud (livro que reúne as principais discussões rabínicas até o início da Idade Média) denominada Pirkei Avot (Capítulo dos Patriarcas). Ben Zomá, que viveu no início do Séc. II da EC, refletindo as discussões rabínicas de seu tempo, declarou o seguinte:

Há quatro características entre os que se sentam diante dos Sábios. [Alguns assemelham-se a] uma esponja, um funil, um coador e uma peneira; uma esponja, que absorve tudo; um funil, que toma de um lado e verte do outro; um coador, que permite que o vinho flua e retém o sedimento; e uma peneira, que permite que passe o pó da farinha e retém a sêmola. (Pirkê Avot, Capítulo V, § 15)

O aprendiz que se assemelha a uma “esponja” é aquele que deixa o sábio pensar por ele, tudo que o sábio diz, ele absorve, sem fazer qualquer juízo de valor. O aprendiz “funil” é aquela famosa figura em que “o que entra por um ouvido sai pelo outro”, não guarda nada. O aluno “coador” é o que retém o sedimento, ou seja, de tudo o que o sábio tem a ensinar, ele só guarda aquilo que é ruim: coleciona críticas a questões triviais e se prende à forma (erros gramaticais, linguajar simples, vestuário, poder aquisitivo) e não ao conteúdo, ou do conteúdo só guarda frases que, fora do contexto, vão permitir que continue a fazer o que não é certo. Já o aluno “peneira” senta para ouvir o mestre sábio, atentando a tudo o que diz e, em seguida, submetendo tudo à prova. Esse é o bom aluno.

Paulo está nos chamando a sermos alunos “peneiras”.

E, ressalte-se, não se deve escutar qualquer um, mas apenas ao sábio. Não se deve ouvir ao que provém de qualquer espírito, mas somente ao que for “candidato” a prover do Espírito Santo – há um só Espírito (Efésios 4:5).

Mas aí vem a nossa segunda questão, existem parâmetros objetivos que nos permitam dizer se algo provém do Espírito Santo e que, portanto, nos diga o que é “o bem”? A Bíblia é muito clara em estabelecer os seguintes parâmetros “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo essa palavra, é porque não há luz neles” (Isaías 8:20). A palavra lei, nesse verso, é “Torah”, referindo-se aos cinco primeiros livros da Bíblia, escritos por Moisés, enquanto que a palavra testemunho (em hebraico, “teudah”) refere-se aos profetas de Deus, os quais eram suas testemunhas (em hebraico “od”), de maneira que a expressão “a Lei e os testemunhos” é equivalente a expressão “a Lei e os Profetas”, ou seja, a Bíblia como um todo. Conclui-se, portanto, que a Bíblia é o parâmetro para identificar se uma mensagem é verdeira ou falsa.

Na introdução ao livro O Grande Conflito, Ellen White ressalta que o dom do Espírito Santo “não foi dado – nem nunca o poderia ser – a fim de sobrepor-se à Escritura; pois esta explicitamente declara ser ela mesma a norma pela qual todo ensino e experiência devem ser aferidos” (Grande Conflito, p. 9). Então nos lembra a advertência de I João 4, verso 1: “provai se os espíritos são de Deus”.

A obediência aos mandamentos sempre será o resultado da profecia, que não se manifesta a fim de atender a interesses pessoais, mas busca o crescimento do “corpo”. De fato, o Livro do Êxodo, no capítulo 15, traz um exemplo dessa circunstância quando, logo após prover água doce para o povo a partir de uma fonte amarga, o Senhor lhes deu “estatutos e uma ordenança, e ali os provou” (Êxodo 15: 25). O parâmetro sempre são os mandamentos e o resultado esperado deve ser a obediência.

O contrário também é verdadeiro e devem ser crescentes nos últimos dias as palavras de outro espírito, que não o Verdadeiro, que remetem não à obediência, mas à transgressão dos mandamentos. Essas falsas manifestações têm o perigo de desviar alguns do caminho da obediência e a outros de trazer-lhes a vontade de extinguir o Espírito. Quanto a isso, adverte a escritora Ellen White, a qual passou pela prova da Bíblia:

“Haverá falsos sonhos e visões, que encerram alguma verdade, mas desviam da fé original. O Senhor deu uma regra pela qual distingui-los: “à lei e ao testemunho: se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não têm iluminação. Isaías 8:20. Se eles desmerecem a lei de Deus, se não dão atenção a Sua vontade tal como é revelada nos testemunhos de Seu Espírito, são enganadores. Eles são controlados por impulso e impressões, que acreditam serem do Espírito Santo, e consideram mais dignos de confiança que a Palavra Inspirada. () Ao passo, porém, que pensam ser guiados pelo Espírito de Deus, estão na verdade seguindo uma imaginação trabalhada por Satanás”. (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 98-99)

“Em conseqüência do fanatismo resultante da obra de homens que falsamente se dizem ensinados por Deus, muitas pessoas sensatas olham com grande desconfiança ou mesmo incredulidade para quem pretenda haver recebido revelações divinas. Entretanto, o pesquisador da verdade tanto deve precaver-se contra o engano dos falsos profetas ou ensinadores, como contra sua própria falta em não reconhecer os que são verdadeiros. “Não desprezeis as profecias; examinai tudo. Retende o bem.” (Testemunhos Seletos, V. 2, p. 286)

Por isso, muito cuidado quando receber convite para ir a um grande culto com milagres, revelações e profecias. Siga o conselho dos rabinos Saul (Paulo) e Ben Zomá, guarde seus ouvidos para o que dizem os sábios, examine os discursos com as lentes da Palavra de Deus e retenha os ensinos que levam a obedecer a Deus (Salmo 119:11).

E para você que esperava um texto tratando sobre formas de entretenimento: Desculpe, meu amigo. Quem sabe na próxima. 😉

Não extingais o Espírito.

Não desprezeis as profecias.

Examinai tudo. Retende o bem.

Abstende-vos de toda a aparência do mal.

E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. 

(1 Tessalonicenses 5:19-23)

 

Por: Gérson Oliveira

 

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