A violência do bem – Comentário jovem sobre a lição da escola sabatina

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Verso-chave: “Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos Céus é tomado à força, e os que usam de força se apoderam dele” (Mt 11:12, NVI)

A lição dessa semana traz à tona uma guerra cósmica que é mais velha que nosso mundo. Ela está presente em várias passagens da Bíblia (vide Mt 12:25-29, Is 27:1, 1Jo 5:19, Rm 16:20, Gn 3:14-19, Ef 2:2; 6:10-13) e os adventistas conhecem-na como “O Grande Conflito”, “A Grande Controvérsia” ou ainda “O Conflito dos Séculos”. Se trata da batalha entre Cristo e Satanás, que começou no Céu e se estendeu para a Terra. No entanto, um aspecto é analisado em especial: a entrada das pessoas no Reino dos Céus e a forma com a qual se entra.

No verso-chave, temos uma das passagens mais curiosas da Bíblia. Fala que o reino dos Céus é tomado por violência, e os homens usam de violência para tomá-lo.

No contexto em que essa passagem ocorre temos uma sequência de fatos:

  • João envia dois discípulos a Jesus para questioná-Lo se era o Messias (Mt 11:2, 3)
  • Jesus manda os discípulos de volta (Mt 11:4-6)
  • Jesus elogia João (Mt 11:15)
  • Jesus mostra a todos sua incredulidade (Mt 11:16-27)
  • Jesus convida todos a trocarem seus fardos pelo Seu, que é leve (Mt 11:27ss)

Para entendermos esse texto, é grande valia recorremos a uma técnica básica de hermenêutica que diz que a Bíblia interpreta a si mesma. Para isso, precisamos buscar passagens paralelas que nos ajudem a ter uma visão ampla sobre o assunto. Fazemos isso de acordo com I Coríntios 2:13:

“ As quais também falamos, não com palavras que a sabedoria humana ensina, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais.”

Sendo assim, quais são os textos paralelos de Mateus 11:11, 12? Verificamos que eles estão em Lucas 16:16 e 7:28. Vejamos o primeiro:

“A Lei e os Profetas profetizaram até João. Desse tempo em diante estão sendo pregadas as boas novas do Reino de Deus, e todos tentam forçar sua entrada nele.” – Lucas 16:16

Observe que, nesse texto, TODOS tentam forçar sua entrada nele [o Reino de Deus], e não alguns, somente. Enquanto em Mateus fala que, em todos os tempos até João, as pessoas usam de força para se apossar dele, em Lucas se fala que desse tempo em diante [depois de João] as pessoas forçam sua entrada. Logo sempre foi assim.

Mas o que seria “forçar sua entrada”? Existem formas diferentes de forçar?

Vejamos o que o Adam Clarke fala à respeito de Mt 11:12 em seu comentário bíblico:

“Os coletores de impostos e pagãos, julgados pelos escribas e fariseus como não merecedores do reino do Messias […], aproveitaram de uma só vez a misericórdia do Evangelho, e assim tomaram o reino à força daqueles doutores que reivindicaram para si os lugares de chefia nesse lugar. O próprio Cristo disse: ‘Os publicanos e as meretrizes vão adiante de vós para o reino de Deus’. Ver a passagem paralela, Lucas 7: 28-30. Aquele que tomar a posse do reino de justiça, paz e alegria espiritual, deve levar a sério: todo o inferno vai se opor a ele em cada passo que der; e se um homem não for absolutamente determinado a desistir de seus pecados e más companhias, e ter sua alma salva em todos os perigos, a todo custo, ele certamente irá perecer eternamente. Isso exige uma violenta seriedade”.

Observe a parte em que se diz que o Mal opor-se-á a cada passo de fé que dermos, e se o homem não estiver determinado a desistir do pecado, ele irá perecer [segunda morte]. Essa é a manifestação do Grande Conflito em nossas vidas. Ou estamos com Jesus, ou não. Ou viveremos, ou pereceremos. Ou nadamos contra a maré, ou somos levados pela correnteza. Não há meio termo.

Isso contradiz claramente o Evangelho que prega que a Graça é de graça, não necessitando nenhum esforço. Infelizmente, essa mentira tem entrado até em nossas fileiras. Jesus deu Sua vida para nos salvar e obtermos perdão dos nossos pecados, agora cabe a nós nos esforçarmos para entrar.

Mas se todos se esforçam, mas nem todos entram, então há uma forma de esforço que é ineficaz. Vejamos Lucas 16:15:

Ele lhes disse: “Vocês são os que se justificam a si mesmos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os corações de vocês. Aquilo que tem muito valor entre os homens é detestável aos olhos de Deus”.

O esforço ineficaz é aquele que fazemos sozinhos. Só podemos entrar no Reino dos Céus em parceria com o Espírito Santo. Só ele pode domar nossa Natureza Pecaminosa e nos conduzir no processo de Santificação. Mas só podemos recebê-lo se estivermos determinados, e isso depende do nosso livre-arbítrio. Isso fica bem evidente em Lucas 7:28-30, o outro verso paralelo:

“Eu vos afirmo que dentre os nascidos de mulher não há um ser humano maior do que João. Todavia, o menor no Reino de Deus é maior do que ele. E todo o povo, inclusive os publicanos, ao ouvirem as palavras de Jesus, reconheceram que o caminho de Deus era justo, e se submeteram ao batismo de João. Entretanto, os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus para eles próprios, e não se dispuseram a ser batizados por ele.”

Os publicanos, que eram considerados incapazes de serem salvos, foram espertos e reconheceram que não poderiam se salvar por seus próprios méritos. Eles entenderam a necessidade da parceria com Jesus e o quiseram. Já os fariseus decidiram pela justificação própria. Em ambos os casos, temos a manifestação do livre-arbítrio.

Jesus nos convida a levarmos seu fardo, pois ele é leve: “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30). Ele é leve não no sentido de que não teremos dificuldades e sofreremos perseguições, mas no sentido de que, independente da situação em que estivermos, jamais perderemos a esperança da Salvação e nossa motivação.

Em que lado do Grande Conflito você está? A respeito de quase todas as guerras da Humanidade, não sabíamos o seu resultado final. Quem na Segunda Guerra Mundial poderia dizer que lado venceria?  No entanto, estamos em uma guerra diferente. Jesus já venceu na Cruz, e você pode vencer junto com Ele.

Pontos rápidos para refletir:

Observe como Jesus age diante dos discípulos de João. Ele não ousa responder sua pergunta, prefere mostrar com ações. Como cristãos devemos falar menos e mostrar mais sobre o que acreditamos. De que forma podemos fazer isto?

Jesus não elogia João quando seus discípulos estavam presentes, mas sim quando estes foram embora. Essa postura é o inverso do que fazemos hoje. Deveríamos falar o que pensamos de negativo sobre uma pessoa para ela mesma, e o que pensamos de positivo para as outras. Essa atitude de Jesus mostra sua prudência, pois elogiando a João, este poderia ter seu ego alimentado e ensoberbecer-se ao ser elogiado pelo próprio Deus, a quem preparara o caminho.

O contraste entre a postura dos fariseus e publicanos é bem explorado na Bíblia. Vejamos:

“Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo. O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.” – Lucas 18:10-14

Quando olhamos para os outros, sempre vamos nos sentir melhor, nos justificar, diminuir o próximo e não nos arrependeremos. Quando olhamos para Jesus, sempre veremos o infinito que falta para chegarmos nele, e reconheceremos o quão somos pecadores. Qual desses dois tipos de cristão você tem sido?

Por Douglas Lima