Para ver Sua face!

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A transfiguração de Jesus é polêmica. Não é de hoje que as denominações cristãs discutem para quê serviu, onde aconteceu, como foi, quando se deu e por que Deus enviou Moisés e Elias para falaram com Jesus. (No meio adventista sempre tem alguém que pergunta por que Enoque não apareceu também).

As explicações são várias: para alguns foi tudo uma visão, para outros eram as almas dos profetas aparecendo, talvez tenha sido no monte Horebe, eles possivelmente apareceram para motivar Jesus, etc.

A despeito da controvérsia sobre esses pontos, e dos raciocínios argutos para nos convencer de uma posição em particular, posso tecer as seguintes considerações universais:

  • Dos Evangelhos que relatam esse episódio, os sinóticos, todos estrategicamente colocam a transfiguração em sequência ao episódio que Pedro responde e reconhece: “Tu és o Cristo!”
  • Jesus fizera pouco tempo antes uma profecia na qual dizia que alguns dos aqui ali estavam com ele não morreriam sem ver o Reino de Deus. (Mt 16:28).
  • Cristo escolheu um monte para se encontrar com Moisés e Elias.

Ainda que se possa fazer a bonita e homilética (que para mim é também válida) referência que Moisés representava a Lei e Elias os Profetas, gostaria de chamar atenção para um detalhe muito curioso presente em Êxodo 33 e I Reis 19.

Moisés e Elias são profetas que sobem ao monte para falar com Deus no Antigo Testamento, mas há uma ressalva:

Levantou-se, pois, e comeu e bebeu; e com a força daquela comida caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe, o monte de Deus.
E ali entrou numa caverna e passou ali a noite; e eis que a palavra do Senhor veio a ele, e lhe disse: Que fazes aqui Elias?

E Deus lhe disse: Sai para fora, e põe-te neste monte perante o Senhor. E eis que passava o Senhor, como também um grande e forte vento que fendia os montes e quebrava as penhas diante do Senhor; porém o Senhor não estava no vento; e depois do vento um terremoto; também o Senhor não estava no terremoto;
E depois do terremoto um fogo; porém também o Senhor não estava no fogo; e depois do fogo uma voz mansa e delicada.
1 Reis 19:8,9,11,12

“E disse mais: Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá.” (Êxodo 33: 20)

Moisés e Elias, em momentos episódicos de suas vidas, subiram ao mesmo monte (pode-se chamar tanto Sinai quanto Horeb) para falar com Deus. Ambos, no entanto, conforme mostrado nos versículos citados, não conseguiram ver Sua face.

Finalmente, depois de tanto tempo, pela primeira vez, Moisés e Elias puderam, num encontro pessoal com Deus no monte, olhar Sua face sem ser pelas costas. A transfiguração foi um evento singular. Ali se manifestara uma miniatura perfeita do Reino de Deus, o cumprimento da profecia que Cristo fizera em Mateus 16:

“Jesus tinha dito a Seus discípulos que alguns havia com Ele que não provariam a morte antes que vissem o reino de Deus vir com poder. Na transfiguração esta promessa se cumpriu. Transformou-se ali o rosto de Jesus, e resplandeceu como o Sol. Suas vestes se tornaram brancas e luzentes.” PE 164

“Moisés, sobre o monte da transfiguração, era um testemunho da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Representava os que sairão do sepulcro na ressurreição dos justos. Elias, que fora trasladado ao Céu sem ver a morte, representava os que se hão de achar vivos na Terra por ocasião da segunda vinda de Cristo, e que serão “transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta”; quando “isto que é mortal se revestir da imortalidade” e “isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade”. I Cor. 15:51-53. Jesus estava revestido da luz do Céu, como há de aparecer quando vier a “segunda vez, sem pecado,… para salvação”. Heb. 9:28. Pois virá “na glória de Seu Pai, com os santos anjos”. Mar. 8:38. Cumpriu-se então a promessa do Salvador aos discípulos. Sobre o monte, foi representado em miniatura o futuro reino da glória – Cristo, o Rei, Moisés como representante dos santos ressuscitados, e Elias dos trasladados.” DTN 422.

A cena deve ter impressionado tanto a Pedro, que é possível que ele tivesse pensando que os visitantes celestes estivessem vindo ajudar Cristo a derrubar o Império Romano. Havia uma crença judaica que associava a Festa dos Tabernáculos, o estabelecimento do Reino de Deus e o julgamento dos ímpios de uma vez só, ela se baseava em no profeta Zacarias:

 E acontecerá que, todos os que restarem de todas as nações que vieram contra Jerusalém, subirão de ano em ano para adorar o Rei, o Senhor dos Exércitos, e para celebrarem a festa dos tabernáculos.”(Zc 14:16).

Assim sendo, Pedro ao olhar para o Reino de Deus ali representado por Cristo, Moisés e Elias, somando sua vontade de se libertar do poder de Roma e esperteza de pensamento, falou:

“Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, façamos aqui três tabernáculos, um para ti, um para Moisés, e um para Elias.”
Mateus 17:4

Ainda que a Festa dos Tabernáculos fosse de extrema importância, para a infelicidade de Pedro, Moisés e Elias não estavam ali para cumprir a cena de Zacarias (como se fossem os justos ressuscitados e os trasladados) em comemoração da vitória sobre os ímpios. A conversa ali era a respeito da morte de Cristo (Lc 9:31).

Pedro queria um Reino mais instantâneo, terreno, e, se preciso fosse, conquistado à força. Mal sabia ele, o afobado e destemido Pedro, que Cristo estava tentando o tempo todo lhe ensinar que a controvérsia não era com os reinos da Terra, mas do bem contra o mal. O ministério de Cristo não era para resolver questões sobre impostos cobrados fosse por Roma fosse pelo Templo, e muito menos o Reino de Cristo seria conquistado fugindo como Pedro sugeriu que o Mestre fugisse. Nada adiantou clamar que o Mestre tivesse piedade dEle mesmo, Cristo estava mais preocupado em ter piedade de nós.

Corremos o sério de risco de, apesar de termos o Mestre ao nosso lado, não estarmos ao lado do Mestre. Nesse risco, podemos acabar sendo como Pedro: ou acertando em cheio que Jesus é o Messias, ou errando feio negando-O entre os homens.

Voltando à transfiguração, como se a história se repetisse, Pedro subiu ao Monte para falar com Cristo, mas dessa vez não foi Moisés e Elias que não viram Sua face, foi Pedro. Posso ter a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) na minha frente, e não enxergar a realidade espiritual, só a terrestre. Como diria um provérbio famoso, quem não sabe é como quem não vê.

No final das contas, não adianta ter ímpeto para tudo mas não ter entendido nada. Leiamos a advertência e entremos neste sábado refletindo reverentemente no que temos, talvez, desperdiçado:

“Por haverem sido vencidos pelo sono, os discípulos pouco ouviram do que se passara entre Cristo e os mensageiros celestiais. Deixando de vigiar e orar, não receberam o que Deus lhes desejava dar — o conhecimento dos sofrimentos de Jesus e da glória que se havia de seguir. Perderam a bênção que lhes teria cabido, houvessem eles participado de Seu sacrifício. Tardios de coração eram esses discípulos, tão pouco sabendo apreciar o tesouro com que o Céu os buscava enriquecer!” DTN 368

 

Por Matheus Fugita