Criados para as boas obras

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Conheci o meu esposo pela internet, através do finado Orkut. Morávamos há cerca de 1.500km de distância, e começamos a namorar quando ainda tudo o que tínhamos era o contato virtual. Naquela época não havia Whatsaap, e nem mesmo uma série de facilidades que possuímos hoje. O fato é que comprávamos créditos nas promoções que surgiam, e assim ele me enviava dezenas de mensagens de celular por dia. Para me pedir em namoro, ele precisou utilizar 3 telefones públicos diferentes [é, a situação não era tão cômoda como hoje, {risos}, mas esta história fica para outro dia]. Depois, ele deixou família e amigos em sua terra natal para morar em minha cidade. Mudou-se para lá com apenas uma mochila nas costas, deixando para trás o que tinha de bens materiais também. Somos casados a pouco mais de 7 anos, e este ano completaremos 10 anos de namoro. Em todos estes anos, ele nunca me deu flores. Este ano, nasceu o Ben, nosso filhinho (de quem ele já falou aqui, há algumas semanas atrás). Por algumas vezes, após o almoço ou no meio da manhã, ouvi Marquinhos me dizer “meu bem, vá dormir que eu cuido dele”.

Por que estou contando isso?

Com alguma frequência eu presencio [ou participo de] conversas em aparecem falas como “não precisamos nos preocupar com obras, só precisamos amar”. Geralmente estas falas são aplicadas quando o assunto tem a ver com reforma de saúde, modéstia cristã, música, entretenimentos, e outros aspectos relacionados ao estilo de vida de um cristão adventista do sétimo dia.

Honestamente, não sei o que as pessoas que pensam assim entendem por “amar”. Eu me sinto amada por meu esposo. Quando ainda morávamos longe, me sentia amada ao receber as suas mensagens em meu celular. Ele me amou quando se esforçou para contornar as limitações impostas pela companhia de telefonia de sua cidade para me pedir em namoro. Amou-me ao deixar quase tudo para trás para morar perto de mim. O fato de não me dar flores significa que ele me ama como eu quero ser amada, afinal de contas, por mais estranho que pareça, eu não gosto de ganhar flores. Ficar com o Ben para que eu durma um pouco, é, atualmente uma das formas mais extravagantes através da qual ele me diz “eu amo você”. Quem é mãe, há de concordar!

É através de obras que Marquinhos me ama. É através de obras que amamos qualquer pessoa ou coisa. É através de obras que amamos a Deus!

É verdade que só precisamos amar. Deus nos pede apenas isso – amor. Escrevi algum tempo sobre isso aqui (http://mulheradventista.com/tudo-que-deus-nos-pede-e-amor/). E amar a Deus significa obedecê-Lo – “Se me amais, guardai os meus mandamentos.João 14:15

Se eu precisasse resumir a lição desta semana em alguns poucos versos bíblicos, este resumo seria:

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.

Não vem das obras, para que ninguém se glorie;

Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.Efésios 2:8-10

Jesus nos salva por Sua graça. Esta graça nos transforma e, à semelhança de Cristo Jesus, praticamos boas obras. Como adventistas do sétimo dia, precisamos entender isso muito bem! Vivemos no Tempo do Fim. O entendimento do papel das obras na vida do cristão não pode ser deficiente por aqueles que pregarão a última mensagem de advertência ao mundo! Tanto na teoria como na prática precisamos compreender com excelência este assunto!

É a fragrância do mérito de Cristo que torna nossas boas obras aceitáveis a Deus, e é a graça que nos habilita a praticar as obras pelas quais Ele nos retribui. Nossas obras, em si e por si mesmas, não têm mérito algum. Quando fizemos tudo que nos era possível fazer, devemos considerar-nos servos inúteis. Não merecemos agradecimentos de Deus. Só fizemos o que era nosso dever, e nossas obras não podiam ter sido realizadas na força de nossa própria natureza pecaminosa.” Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 200.

A citação acima sintetiza muito bem o que muitos confundem em suas mentes:

  • Os méritos são de Cristo
  • A graça não apenas cobre pecados, mas nos habilita a praticar o bem
  • Quando obedecemos a Deus não estamos fazendo nada mais que a nossa obrigação (Lucas 17:10), portanto não há nada de que nos gloriar, até porque é pelo poder dEle que podemos obedecê-Lo.

Ao longo desta semana vimos “toda a casa de Israel” (Ez 37:11) ser representada por ossos secos. Que figura triste! Ao mesmo tempo, em Ezequiel 47, vimos a igreja de Deus representada nas águas que vazavam por debaixo da porta e íam até ao mar, levando vida por onde passavam.

Pensando em nossa realidade atual, enquanto igreja, estas figuras falam algo sobre nossa condição real e a condição ideal para a qual Deus nos destinou.

Deus escolhera Israel para revelar Seu caráter aos homens. Ele queria que eles fossem fontes de salvação no mundo. A eles foram entregues os oráculos do Céu, a revelação da vontade de Deus.” Atos dos Apóstolos, pág. 14

Somos o povo que vive enquanto Cristo efetua o juízo investigativo. O povo sobre quem é dito a João que não é frio nem quente, mas morno, que é miserável, pobre, cego e nu (e nem sabe que é tudo isso), e precisa comprar de Cristo ouro provado no fogo, roupas brancas e colírio (Apocalipse 3:14-18). À semelhança do antigo Israel, Deus deseja revelar Seu caráter ao mundo através de nós. Deseja que sejamos fonte de salvação e nos revela Sua vontade através da Bíblia e do Espírito de Profecia.

E, à semelhança do antigo Israel, temos sido negligentes em nossa missão. Rejeitamos os profetas, como eles também rejeitaram. Não gostamos de ouvir as mensagens de advertência. Gostamos de dizer ao mundo que somos diferentes, quando na verdade, somos iguais. E uma das provas de que somos iguais é a forma equivocada como entendemos o que é amar, o que é praticar boas obras.

A maior parte de nosso povo rejeita a mensagem de saúde, pelo menos na prática. Nossas irmãs não gostam de ouvir verdades acerca da modéstia cristã, e nossos irmãos agem como se esse assunto não tocasse a vida deles também. Dízimos e ofertas são entregues todos os sábados de forma meramente ritualística, como mais uma das formalidades que temos a cumprir (quantos de nós já abriu a carteira dentro da igreja para procurar algum dinheiro para ofertar?), e em alguns casos nem são entregues. Usamos as horas do sábado em conversas vãs, ou roubamos de Deus horas deste dia santo dormindo. Ouvimos e cantamos aquilo que nos agrada, e ficamos aborrecidos quando algum irmão nos diz que o tipo de música que apreciamos não agrada a Deus e não deve ser utilizado na adoração a Ele. Poderia listar uma porção de coisas que  fazemos hoje, como povo, e que não estão em conformidade com a vontade revelada de Deus. E em meio a tudo isso, fazemos campanha do agasalho, mutirão de natal, visitas a orfanatos, abraços grátis, e voltamos para nossas casas com a sensação de dever cumprido, como se as pessoas precisassem de roupa, comida e atenção uma vez no ano apenas.

É claro, que escrevi aqui de forma genérica, e é possível que você não se identifique com essa descrição. É claro, também, que não sou contra campanhas e atividades que venham a beneficiar o próximo, como as que foram descritas no final do parágrafo anterior. O que estou tentando apontar é quão deficientes temos sido no cumprimento de nosso papel neste mundo. Jesus disse que somos sal da terra (Mt 5:13) e luz do mundo (Mt 5:14). Temos sido ossos secos, quando deveríamos transmitir vida.

A piedade prática, que alguns entendem ser essas ações pontuais de caridade, tem a ver com obediência total a Deus, tem a ver com a revelação de Seu caráter em nossa vida (que, obviamente inclui atender às necessidades básicas das pessoas, mas não apenas isso, e não da forma como fazemos). Observe o que a profetiza do Senhor escreveu em Profetas e Reis, pág. 167, e Paráboras de Jesus, pág. 226:

“Insistindo sobre o valor da piedade prática, o profeta estava unicamente repetindo o conselho dado a Israel séculos antes. Por intermédio de Moisés, quando estavam para entrar na terra prometida, a palavra do Senhor havia sido: “Agora, pois, ó Israel, que é o que o Senhor teu Deus pede de ti, senão que andes em todos os Seus caminhos, e O ames, e sirvas ao Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, para que guardes os mandamentos do Senhor, e os Seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” Deuteronômio 10:12, 13. De século em século esses conselhos foram repetidos pelos servos de Jeová aos que estavam em perigo de cair nos hábitos do formalismo e de esquecer de demonstrar misericórdia. Quando, durante o Seu ministério terrestre, o próprio Cristo foi assediado por um doutor da lei com a pergunta: “Mestre, qual é o grande mandamento da lei?” Sua resposta foi: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas”. Mateus 22:36-40.” – {PR 167.5}

“Os que aguardam a vinda do esposo devem dizer ao povo: “Eis aqui está o vosso Deus.” Isaías 40:9. Os últimos raios da luz misericordiosa, a última mensagem de graça a ser dada ao mundo, é uma revelação do caráter do amor divino. Os filhos de Deus devem manifestar Sua glória. Revelarão em sua vida e caráter o que a graça de Deus por eles tem feito. – {PJ 226.5}
A luz do Sol da Justiça deve irradiar em boas obras — em palavras de verdade e atos de santidade.” – {PJ 226.6}

Fico imaginando como eu me sentiria caso o meu esposo me tratasse com carinho e fizesse coisas boas para mim de forma esporádica, quem sabe para ganhar milhas de companhia aérea, ou pontos no cartão de crédito. (Certamente, se fossem oferecidos prêmios desse tipo, muitos maridos tratariam suas esposas melhor do que o fazem hoje). Isso, para mim, não seria amor! Quando leio sobre a luz que deve irradiar em nossa vida, enquanto servos de Deus, isso me parece fruto de um processo natural, algo esperado na vida de quem está no caminho da santificação. Não me parece que os atos de santidade que Deus requer de nós devem vir como respostas a incentivos e gincanas promovidos pela igreja para que os irmãos ganhem alguma premiação em troca. Quando vejo as campanhas para estudo da lição da escola sabatina, por exemplo, e os esforços que nossos líderes fazem para envolver a igreja na missão, penso quão distantes ainda estamos de sermos uma igreja reavivada pelo Espírito.

É Deus quem dá vida aos ossos secos! Não precisamos de brindes, precisamos do Espírito Santo! E entenda, eu não sou contra os esforços que nossos pastores têm feito para incentivarem o povo de Deus a fazer aquilo que, segundo Lucas 17:10, é nossa obrigação. Apenas estou apontando a deficiência que há em nossos métodos, uma vez que somente ligados a Deus podemos ter uma religião viva.

Comunhão, relacionamento e missão é algo próprio da vida de quem foi salvo das trevas para a prática de boas obras. Isto é viver em santificação.

Enquanto estudava a lição desta semana, li o texto abaixo, do Espírito de Profecia (Meditação Matinal – Nossa Alta Vocação, pág. 210) e gostaria de concluir este post com esta citação:

Homem algum recebe a santidade como direito de nascimento, ou como dádiva de qualquer outro ser humano. A santidade é dom de Deus por meio de Cristo. Os que recebem o Salvador tornam-se filhos de Deus. São Seus filhos espirituais, nascidos de novo, renovados em justiça e verdadeira santidade. Sua mente é mudada. Com mais clara visão, contemplam as realidades eternas. São adotados na família de Deus, e tornam-se conformes a Sua imagem, transformados por Seu Espírito de glória em glória. De nutrir amor supremo pelo próprio eu, vêm a acariciar supremo amor por Deus e por Cristo. … – {AV 210.3}
Aceitar a Cristo como Salvador pessoal, e seguir-Lhe o exemplo de abnegação — este é o segredo da santidade. — The Signs of the Times, 17 de Dezembro de 1902. – {AV 210.4}
Santidade não é êxtase; é o resultado de tudo entregar a Deus; é viver por toda palavra que sai da boca de Deus; é fazer a vontade de nosso Pai celeste; é confiar em Deus na provação, crendo-Lhe nas promessas tanto nas trevas como na luz. Religião é andar pela fé tanto como pela vista, confiando em Deus com toda confiança, e descansando em Seu amor. — The Youth’s Instructor, 17 de Fevereiro de 1898. – {AV 210.5}
Santificação é um estado de santidade, exterior e interior, sendo santo e sem reservas pertencendo ao Senhor, não na forma, mas de verdade. Toda impureza de pensamento, toda paixão concupiscente, separa a alma de Deus; pois Cristo jamais pode pôr Sua veste de justiça sobre um pecador, para ocultar-lhe a deformidade. … Precisa haver progressiva obra de triunfo sobre o mal, de simpatia para com o bem, um reflexo do caráter de Jesus. Precisamos andar na luz, a qual aumentará e se tornará mais brilhante até ao dia perfeito. Isso é crescimento real, substancial, que atingirá finalmente à plena estatura de homens e mulheres em Cristo Jesus. … – {AV 210.6}
O Céu é um lugar feliz porque é um lugar santo. A conformidade com a semelhança do caráter de Cristo, vencendo todo pecado e tentação, andando no temor de Deus, tendo o Senhor continuamente diante de nós, trará paz e alegria na Terra, e nos assegurarão pura felicidade no Céu. — Carta 12, 1890. – {AV 211.1}

Por Karyne Lira Correia