Breve estudo sobre a doutrina do pecado – uma tréplica a Leandro Quadros

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Este texto é a continuação de um debate entre nossa equipe e Leandro Quadros. Neste artigo, abordaremos os seguintes assuntos:

a) O conteúdo dos vídeos de Leandro Quadros em que comenta a questão do sétimo mandamento e sua resposta a nosso texto;

b) O debate sobre a definição de pecado e a Lei de Deus;

c) Análise dos textos de I Jo 1:8 e 10; I Jo 3:6-9;

d) Análise de Romanos 7;

e) Textos de Ellen White sobre hamartiologia.

Como este debate começou?

Ano passado, Leandro Quadros publicou um vídeo acerca do uso de transporte público aos sábados [chamaremos esse vídeo de “vídeo 1”]. Por motivos que desconhecemos, ele considerou que seria proveitoso ilustrar essa situação com o que ocorre com o adultério, momento em que ele disse as seguintes palavras:

Quantos de nós consegue obedecer 100% ao mandamento não adulterarás? Ninguém! Porque se não adulterar fisicamente, mentalmente a pessoa acaba adulterando. (sic)

 

Em resposta ao pensamento que ele desenvolveu, nossa equipe elaborou um texto educado e respeitoso, contrapondo-se ao que consideramos grave desvio teológico. E, recentemente, Leandro Quadros fez outro vídeo resposta em “réplica” ao artigo que elaboramos. [Chamaremos esse vídeo de “vídeo 2”.]

Comparemos nosso texto com a resposta dele?

Nós tivemos, na oportunidade, o cuidado de inserir o link de acesso ao vídeo 1 ao final de nosso texto, para que cada um pudesse ver e avaliar as palavras do jornalista por si mesmo. Ele, porém, no vídeo 2, não especificou a quem se dirigira de forma explícita, nem mesmo referenciou o artigo a que estava respondendo. Apenas disse que o texto tirava suas palavras do contexto.  

No vídeo 1, ele chegara às suas conclusões sem citar um único texto bíblico ou do Espírito de Profecia. Nós, no entanto, citamos tanto Bíblia quanto Espírito de Profecia, citações que ele simplesmente ignorou na suposta “resposta” de seu vídeo 2.

Ao passo que nós, no início do texto, dissemos que não julgaríamos as intenções de Leandro Quadros em nossas considerações, a atitude dele foi diversa, pois afirmou que estávamos nos aproveitando de seu nome para “aparecer” nas suas costas (0’52’’ do vídeo 2).

Feitas essas observações preliminares, reafirmamos que não faremos julgamento das intenções de Leandro Quadros. Não tentaremos deduzir por quais motivos ele ignorou os textos de Ellen White que citamos, não vamos supor que ele fez o vídeo 2 porque queria ganhar audiência com nossos leitores e não insinuaremos que ele seja hipócrita (uma das palavras que ele mais usou no vídeo 2) ou coisa parecida. Não! Ele deve ter seus motivos. Se quiser se explicar, estaremos dispostos a ouvi-lo.

O que Leandro Quadros precisa saber é que, longe de estarmos no terceiro ano do fundamental, esta não é uma discussão infantil, nem consiste numa batalha fútil de ego, como ele insinuou em 1’08’ do vídeo 2. Não queremos fazer a “luz” dele brilhar menos, ou qualquer coisa do tipo. Quem leu nosso texto jamais poderia ter chegado a essa conclusão. Nossa intenção foi puramente discordar de forma decente e fundamentada. Isso brota, emerge e salta aos olhos do leitor.

E, apesar de estarmos sempre dispostos a receber críticas e respostas referentes a nossos artigos e dialogar sobre elas, infelizmente Leandro Quadros dificultou muito nosso trabalho de responder ao vídeo 2. E em que consiste essa dificuldade? Consiste na confusão de suas ponderações a respeito de nosso texto.

Enquanto, nos primeiros minutos, Leandro Quadros tenta se defender alegando que fora mal interpretado, supostamente por termos usado suas palavras fora de contexto, logo em seguida, principalmente entre os minutos 2 e 4 do vídeo 2, ele reafirma aquilo que nós havíamos interpretado inicialmente. Isso fica claro quando Leandro Quadros diz que, se foi um homem que redigiu o texto de nosso site, dando ênfase que o sexo masculino é mais inclinado à tentação visual, trata-se de um hipócrita, pois ninguém consegue parar de ter adultérios mentais ocasionais.

Ora, Leandro Quadros precisa se decidir: afinal de contas, a acusação dele consiste em que distorcemos suas palavras ou de que, na verdade, ao discordarmos de sua ideia (que interpretamos corretamente), somos hipócritas?! Uma coisa ou outra. Não dá para serem as duas ao mesmo tempo. De qualquer forma, uma coisa é certa: quem leu nosso primeiro texto  sabe que, em momento algum, nós tiramos as palavras dele de contexto. E seja qual for a acusação que ele queira fazer, ela não se fundamenta de maneira alguma.

Queremos lembrar ao leitor que tentar atacar a moral do adversário (chamando-o repetidas vezes de hipócrita, por exemplo), em um debate cristão, é de pouquíssimo proveito. Pela dialética erística, pode-se dizer que esse recurso da retórica de Leandro Quadros não passa de um “rótulo odioso”. De que se constitui tal estratagema? Esse artifício fica melhor ilustrado com a tendência de fazer da palavra “perfeccionista” um porrete para bater na cabeça dos outros. Essa palavra polissêmica, estigmatizada e imprecisa pode até parecer uma boa tática de acusação, mas é tão sólida quanto uma cortina de fumaça. Sua adjetivação em nada melhora seus argumentos.

[Obs.: entendemos que as acusações de Leandro Quadros sobre os “perfeccionistas” se estendem a nossa equipe, pois compartilhamos dos princípios que, segundo ele, qualificam uma pessoa como “perfeccionista”. Foi com pesar que notamos que várias de suas acusações foram diretamente direcionadas a nós.]

Quem assistiu ao vídeo 2 possivelmente notou que Leandro Quadros passa a maior parte do tempo nos rotulando de hipócritas, perfeccionistas e desonestos. Disse também que os tais “perfeccionistas” se valem do que a psicologia chama de compensação para esconder suas faltas ocultas. Mas essas afirmações grosseiramente genéricas fundamentam-se em quê? Nas experiências pessoais de Leandro Quadros com os “perfeccionistas”? Se sim, isso permite que ele faça essas generalizações grosseiras sob a bandeira da psicologia?  Que busque terapia quem precisa. Nem todos têm os mesmos problemas.   

É cada vez mais frequente essa retórica que mescla o perfeccionismo disfuncional (tema de estudo da psicologia) com a posição teológica que defendemos. Mas não há relação direta entre um e outro. Portanto, convidamos Leandro Quadros a parar de falar sobre as intenções alheias e a parar também de dar parecer psicológico sobre posições teológicas.

Depois de gastar mais de 3 minutos falando de nossas intenções e que é impossível não cairmos, episodicamente, em adultérios mentais, lá para o tempo 3’30’’ do vídeo 2, Leandro Quadros finalmente começa a tentar fundamentar seu ponto de vista. Vejamos, AFINAL, o que o repertório exegético e teológico dele pode dizer acerca do assunto discutido.

DEFINIÇÃO DE PECADO

Falando de Hamartiologia, Leandro Quadros diz que é um erro pensar que pecado é definido nas Escrituras apenas como “transgressão da lei”. Se analisarmos todo seu discurso a partir do minuto 7, a lógica empregada é esta: o fato de a Bíblia usar mais de uma palavra para “pecado” implica ou sugere, consequentemente, que há mais de uma definição de pecado.

Nem é preciso ir tão a fundo para se demonstrar o erro do silogismo. Se ele não melhorar sua argumentação, pode-se corretamente caracterizar essa fala, segundo a erística, como “petição de princípio oculta”, pois ele toma como prova aquilo que no instante anterior acabou de postular. Não houve justificativa convincente na argumentação. Leandro Quadros precisa fazer melhor do que isso para nos persuadir de sua conclusão.

O fato de a palavra “pecado” ser expressa por mais de um vocábulo, nas línguas originais, não implica que “pecado” tenha mais de uma definição, ou que a definição dada em 1 João 3:4 não possa ser aplicada, também, a todas as palavras para “pecado” que constam das Escrituras.

Defenderemos que, denotativamente, nenhuma das palavras traduzidas como “pecado”, seja do Grego ou do Hebraico, está fora da definição “transgressão da lei”. Como prova, iremos nos valer dos mesmos exemplos de Leandro Quadros.

Durante sua exposição, foram citadas algumas palavras hebraicas para pecado, tais como chatah (pronuncia-se <ratá>, e não “xatá”), avon, pesha etc. Logo em seguida, arbitrariamente, em 7′ 41” do vídeo 2, ele seleciona qual dessas palavras para pecado nós venceremos e qual delas não venceremos totalmente. Para Leandro Quadros, os pecados registrados como chatah ou avon jamais serão vencidos completamente antes da volta de Jesus. Portanto, a completa abstenção de práticas pecaminosas está restrita às demais palavras para pecado que ele citou.

Nesse momento, ele aproveita para ressaltar que seria muita pretensão (“uma hipocrisia sem tamanho”) dizer que algum ser humano consegue parar de pecar no sentido da palavra chatah, pois, literalmente, o vocábulo significa “errar o alvo”.

Aqui, porém, cabe uma explicação. É óbvio que a discussão sobre o vocábulo “chatah”, traduzido como pecado, só é possível quando se tem em mente falhas de performance moral. É apenas esse tipo de falha que necessita de arrependimento, confissão e abandono. Seria errôneo dizer que situações ordinárias e comuns do dia a dia, como errar uma pedrada, ao se treinar a mira (Jz 20:16), sejam tidas por Deus como pecado e que o sangue de Cristo faz expiação por esse tipo de situação. 

Quando vemos, então, que chatah diz respeito a errar o alvo da Lei de Deus, que é o supremo alvo (Sl 119:165, Sl 37:31, Pv 28:9), e quando analisamos as ocorrências desse verbo na Bíblia, verificamos que é assustador dizer que os justos não deixarão, definitivamente, de pecar (chatah) antes da volta de Jesus. Vamos ver alguns exemplos?

Faraó admitiu que pecara (chatah) contra Deus por não ter libertado o povo antes da praga dos gafanhotos (Ex 10:16); os filhos de Israel disseram que haviam pecado (chatah) pois deixaram o seu Deus e serviram aos baalins (Jz 10:10);  o episódio de idolatria e festejos por ocasião da elaboração do bezerro de ouro (Ex 32:33) é tido como pecado (chatah); ao confessar seus erros diante de Samuel e ser então informado de que o Senhor o rejeitou como rei, Saul diz que havia pecado (chatah) contra Deus por ter dado razão ao povo (I Samuel 15:24); ao falar sobre Satanás, representado na figura do rei de Tiro (Ez 28:16), é dito que ele pecou (chatah) e por isso foi expulso; Jeremias relata o discurso divino sobre o futuro terrível de Babilônia pois essa nação pecara (chatah) grandemente contra o Senhor (Jr 50:14) etc.

A lista é grande. Há muitas dezenas de ocorrências desse verbo na Bíblia e as ocasiões de rebelião e graves pecados contra Deus não são minoria. É evidente que o “errar o alvo” foi fatal e motivo do total desagrado divino! Todas essas falhas eram evitáveis. 

Na tentativa de fazer uma escala de gravidade, que pode até existir em certas nuances, mas que não tem nenhum reflexo real sobre a definição de pecado, Leandro Quadros acaba complicando cada vez mais sua ideia. Se formos levar seu argumento às últimas consequências, teremos de admitir que o povo de Deus continuará cometendo terríveis pecados e rebeliões contra Deus até os últimos instantes antes da volta de Jesus, pois esse uso de chatah é frequentemente visto nas Escrituras. Que absurdo! Chatah não é um pecado mais ameno ou simples. Chatah não é simplesmente um descuido bobo que cometemos. Todos os pecados são extremamente graves para Deus. Ele, com certeza, quer, sim, que paremos de errar o alvo. Usar esse exemplo foi um péssimo argumento!

Em certa medida, o mesmo vale para o vocábulo avon. Em Gênesis 15:16, é dito que haveria um retorno para as terras prometidas por Deus na quarta geração do cativeiro da descendência de Abraão no Egito, momento em que se menciona que a iniquidade (avon) dos amorreus ainda não se havia completado. Semelhantemente, em Levítico 26:39, é dito que, se o povo de Israel não andasse nos caminhos de Deus, eles seriam consumidos pela iniquidade (avon) de suas nações vizinhas. Nota-se, portanto, que a declaração feita por Leandro Quadros de que o povo de Deus não vai parar de pecar (avon) é completamente catastrófica. Aconselhamos que ele reveja as ocorrências dos verbos que citou, pois a última coisa que elas fazem é apoiar seu argumento.

LEANDRO QUADROS E OS TEXTOS DE ELLEN G. WHITE

Em vários momentos do vídeo 2, Leandro Quadros afirma que aquele que acredita em uma única definição para pecado não possui uma correta compreensão do que realmente seja o pecado. Se é assim, seria interessante saber como Leandro Quadros consegue conciliar sua explicação (encontrada em 3’58’’ do vídeo 2) com algumas enfáticas e inequívocas citações de Ellen G. White. A primeira delas é a que segue:

 

Ensinai à juventude que o pecado, sob qualquer forma, é definido nas Escrituras como “transgressão da lei.” I João 3:4. … Ensinai-lhes em linguagem simples que eles devem ser obedientes aos pais, e dar o coração a Deus. Jesus Cristo espera o momento de abençoá-los e aceitá-los, se tão-somente a Ele forem e Lhe pedirem que lhes perdoe todas as transgressões, e tire os pecados. (Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes, p. 169).

Esse é apenas um dos diversos textos em que Ellen G. White faz referência à ÚNICA DEFINIÇÃO DE PECADO. O ponto mais valioso dessa citação é o fraseado: “pecado, SOB QUALQUER FORMA, é definido nas Escrituras como ‘transgressão da Lei’”. Se, sob qualquer forma, o pecado é definido como transgressão da Lei, só se pode concluir que essa é sua única definição. E não poderia ser diferente, visto que Ellen White, corretamente, valorizava a terminologia do apóstolo João.

Outras referências podem ser citadas: O Grande Conflito, p. 493; No Deserto da Tentação, p. 90; Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 320; Fé e Obras, p. 56; Fé e Obras, p. 117; 7BC 951.3. Essas são apenas algumas das VÁRIAS citações, não repetidas, que poderiam ser elencadas.

Em outro vídeo mais recente, Leandro Quadros até comenta, superficialmente, sobre a natureza de tais textos. Segundo ele, quando Ellen G. White usou a palavra “única”, ela não quis dizer “única”, no sentido de restrição, mas, sim, no sentido de importância, como se quisesse dizer “principal”.

(Link de acesso para onde ela fala isso: https://www.facebook.com/leandroquadrosnt/videos/1728500467166654/).

Essa explicação, NA MELHOR DAS HIPÓTESES,  sugere um desconhecimento profundo sobre os textos em que ela comenta a definição de I Jo 3:4.

Vejamos alguns exemplos:

 

Pois bem, PRECISAMOS COMPREENDER O QUE É O PECADO – a saber, que ele é a transgressão da lei de Deus. Essa é a ÚNICA definição dada nas Escrituras. (Fé e Obras, p. 56)

 

Esse é um dos textos mais importantes de Ellen G. White sobre o assunto, pois ela diz que “precisamos compreender o que é o pecado” e depois explica que o pecado é a “transgressão da lei”. Em seguida, acrescenta que essa é a “única definição dada nas Escrituras”. E daqui não há para onde correr. Ou ela acertou, ou ela errou. Esse é um tema crucial, não secundário. Se errou, não é verdadeira profetisa.

Em outro de seus livros, ela declara:

 

Terrível condenação está reservada ao pecador, e, portanto, é necessário que saibamos o que é pecado, para que possamos livrar-nos de seu poder. João diz: “Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei.” I João 3:4. Temos aqui a VERDADEIRA definição do pecado; ele “é a transgressão da lei”. Quantas vezes o pecador é incentivado a abandonar os seus pecados e a ir a Jesus; será, porém, que o mensageiro que quis conduzi-lo a Cristo indicou claramente o caminho? Apontou ele claramente para o fato de que “o pecado é a transgressão da lei” e que o pecador precisa arrepender-se e abandonar a transgressão dos mandamentos de Deus? (Fé e Obras, p. 117)

 

Repare-se que os textos não só qualificam a definição de I Jo 3:4 como sendo “única”, mas também a adjetivam como a “verdadeira” definição de pecado. Qualificar uma frase como verdadeira não é apenas atestar a importância dela. Ou será que, para Leandro Quadros, “verdadeiro” é a mesma coisa que “principal”?!

Sim, Leandro Quadros ERROU ao querer impor ao adjetivo “única” o sentido de “principal”. Ele ainda foi capaz de dizer que aqueles que interpretam “única” como “única”, que é o sentido óbvio do texto, estão desinformados sobre o que Ellen White quis dizer!  

A intenção de Ellen G. White, indiscutivelmente, não era de mera ênfase, mas, sim, ensinar que a fórmula de I Jo 3:4 é aquela que devemos usar. Se o objetivo não fosse restringir, não faria o menor sentido complementar essa informação dizendo que tal definição é a única encontrada “na Bíblia”, “nas Escrituras” etc. O mesmo ocorre aqui:

“O cumprimento da lei é o amor.” Rom. 13:10. A ÚNICA definição de pecado, ENCONTRADA NA BÍBLIA, é: “O pecado é a transgressão da lei.” I João 3:4. (Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 320)

Diante desses textos, como devemos interpretar o adjetivo “única”? Naturalmente, em seu sentido óbvio e simples: como “única” mesmo.

Curiosamente, nenhuma das palavras para “pecado” citadas anteriormente por ele escapam da definição de I João 3:4. Todas elas, mesmo que possam representar uma transgressão de menor gravidade, estão abraçadas pela definição “transgressão da Lei”.

Acostumado com a cultura judaica, não é de admirar que a definição do apóstolo João seja tão precisa. Ao se deparar com as ocorrências de “pecado” nas Escrituras, ele não poderia ser mais certeiro ao declarar: “pecado é transgressão da lei”.

A passagem de I Jo 3:4 é o ÚNICO trecho das Escrituras onde a palavra “pecado” está sintaticamente agindo como sujeito da oração, sendo seguida de verbo de ligação e predicativo que contenha uma definição. Essa estrutura segue a fórmula que toda definição comumente tem. Logo, essa constatação não foi mera invenção de Ellen White. Decorre da própria estrutura do texto.

Repare-se: pecado [sujeito] é [verbo de ligação] transgressão da Lei [predicativo com objetivo de definição].

Por isso, defendemos que Romanos 14:23 não oferece uma nova definição de pecado. O que ocorre nesse verso é tão somente uma exemplificação de pecado, e não uma definição.

Quando Paulo diz que “tudo que não procede de fé é pecado”, ele está dizendo que tal atitude de descrença é uma violação da vontade de Deus. Isso não é uma nova definição. É apenas um exemplo de pecado!

A Bíblia afirma a existência de inúmeras condutas pecaminosas: a conversa vã (Provérbios 10:19), o desprezo pelos outros (Provérbios 14:21), os pensamentos insensatos (Provérbios 24:9), o descuido das oportunidades (Tiago 4:17) etc. Todas elas, porém, à semelhança de Romanos 14, são apenas exemplos de pecados, e não novas definições.

Podemos dizer, portanto, que as Escrituras energicamente declaram (i) que o pecado é definido como a “transgressão da lei” (I João 3:4); (ii) que,  “onde não há lei, também não há transgressão” (Romanos 4:15); (iii) que o pecado é proibido aos que desejam seguir a Cristo (João 8:11); (iv) que pode ser perdoado (I João 1:9); e (v) que deve ser abandonado (Hebreus 12:1; I João 3:6-9). Ora, se o pecado fosse algo intrínseco ao homem, parte do onthos humano, fariam as Escrituras exigências impossíveis e, portanto, irrazoáveis, ao prescreverem:

Tornai-vos à sobriedade, como é justo, e não pequeis. I Coríntios 15:34

Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que Se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar. Isaías 55:7

(…) quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade. Efésios 4:22-24

Assim, conclui-se que o pecado, como o crime, é passível de ser praticado, não possuído como natureza; é um pensar, agir e omitir que contraria a Lei; é conduta, não um ser; é atuação, não substância. Deus ama o ser humano, mas odeia o pecado.

Ressalte-se, também, que Ellen G. White considera “transgressão da lei” como algo além de ser a “única definição” de pecado:

 

A única interpretação de pecado é “a transgressão da lei”. [1 J0 3:4.] Quando o pecador diz: “Eu a quebrei”, ele olha para a cruz do Calvário e despeja seus pecados aos pés dela. O que é isso? A misericórdia e verdade se reuniram e a justiça e a paz se beijaram. Louvai-o com a voz! Que as coisas animadas e inanimadas louvem a Deus! Satanás diz: Você é um pecador. O indivíduo, então, olha para a cruz e diz: Sim, é porque pequei contra Deus. {Ms2-1893.18} Obs.: tradução nossa.

 

A parte inicial e a final desse texto são tão significativas que mereceriam ser motivo de meditação por várias horas! Com mais ênfase do que em qualquer outra parte, Ellen White diz que a ÚNICA INTERPRETAÇÃO de pecado é transgressão da Lei. E, além disso, na ilustração proposta por ela, o homem reconhece que é pecador porque pecou contra Deus.

Esse texto nem precisa de tantas explicações. Na verdade, quem precisa nos explicar algo é Leandro Quadros. Como harmonizar essas citações, escancaradamente explícitas quanto à definição e interpretação de pecado, com o que ele diz em 3’58’’ do vídeo 2?! Estamos ansiosos pela harmonização!

 

O QUE É A “LEI” NA DEFINIÇÃO DE PECADO?

 

Poderá alguém dizer que estamos sendo erroneamente reducionistas, pois há exemplos de pecados que não estão explicitamente proibidos no texto de Êxodo 20. Bem, pelas últimas manifestações de Leandro Quadros na mídia, sabemos que ele é um dos adeptos dessa crítica.

Atacar um espantalho, todavia, em nada afeta nossa posição. Na verdade, apenas mostra que os defensores da visão pluralista da definição de pecado estão enxergando o assunto às avessas, pois não somos nós que reduzimos toda a abrangência da Lei de Deus apenas à letra dos 10 mandamentos. Os que defendem várias definições para o pecado é que agem assim.

Ainda que reconheçamos que os 10 mandamentos contenham princípios universalmente aplicáveis a praticamente todos os casos, nossa posição é de que toda a vontade de Deus revelada ao homem está inclusa em Sua Lei. De modo que ter comido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 3), ainda que essa proibição não estivesse explícita no decálogo, configurou pecado, pois a ordem de Deus fora desobedecida. É o que Ellen White também declara: “Pela transgressão da lei divina, Adão e Eva foram banidos do Éden” (DTN, 524).

Afinal, foi o próprio Cristo que, em Mateus 22:37-40, resumiu a Lei a dois mandamentos, dos quais toda a Lei dependia: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento” e “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Apesar de esses mandamentos não estarem redigidos literalmente dessa forma no decálogo, acreditamos que a base principiológica de Cristo foi clara.

Que a Lei de Deus não se restringe unicamente ao que é dito, explicitamente, na redação do decálogo, também se extrai tanto do Salmo 119 quanto do Espírito de Profecia. Repare-se:

Tenho visto fim a toda a perfeição, mas o teu mandamento é amplíssimo. [Outras versões dizem: “ilimitado”.]  Salmo 119:96

Diz o salmista: “A lei do Senhor é perfeita.” Sal. 19:7. Quão maravilhosa em sua simplicidade, sua amplidão e perfeição, é a lei de Jeová! É tão breve que facilmente podemos decorar cada um de seus preceitos, e todavia tão vasta que exprime toda a vontade de Deus, e toma conhecimento, não só das ações exteriores, mas dos pensamentos e intentos, dos desejos e emoções do coração. Não podem fazer isso as leis humanas. Só podem tratar das ações exteriores. Pode um homem ser transgressor, e no entanto esconder dos olhos humanos os seus maus atos; pode ele ser criminoso – ladrão, assassino ou adúltero – mas enquanto não for descoberto, não o pode a lei condenar como culpado. A lei de Deus denuncia o ciúme, a inveja, o ódio, a malignidade, a vingança, a concupiscência e a ambição que emergem da alma, mas não encontraram expressão em ato exterior, porque faltou ocasião, e não vontade. E essas emoções pecaminosas serão tomadas em conta no dia em que “Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom quer seja mau”. Ecl. 12:14. (Mensagens Escolhidas, vol. 1, 217)

 

Já prevendo o que nosso leitor pode estar pensando, adiantamos que trataremos, sim, de Romanos 7. Não fugiremos a esse texto! No entanto, cabe, antes, fazer alguns comentários sobre I Jo 1:8-10 e I Jo 3:6-9, pois Leandro Quadros fez referência a essas passagens para fundamentar sua visão de que somos invariavelmente pecadores e que, por isso, não podemos parar de pecar.

 

Explicando I João 1:8-10 e I Jo 3:6-9

O texto de 1 João 1:8 diz:

Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós.

A expressão “temos pecado”, na língua portuguesa, pode ser interpretada morfologicamente de duas formas. Uma delas é: temos (verbo “ter” no presente do indicativo) + pecado (particípio do verbo “pecar”). Essa interpretação daria margem para lermos o texto como uma locução verbal.

“Temos cantado hinos todos os sábados”, “Estamos ajudando a Novo Tempo”, “Temos pregado o Evangelho” etc são exemplos de locuções verbais, isto é, a união de dois verbos para se transmitir um só sentido. Dessa forma,“temos pecado”, como locução, poderia se referir a um hábito passado ou atitude que se iniciou no passado e que vem se repetindo.

A outra possibilidade de interpretação da expressão “temos pecado” é: temos (verbo “ter” no presente do indicativo) + pecado (substantivo). Já não se trata mais de uma locução, mas, sim, da afirmação de que alguém possui um pecado.

Essas duas possíveis leituras causam uma ambiguidade indesejada. Esse problema, no entanto, só ocorre na língua portuguesa, pois é no mundo lusófono que o substantivo pecado e o particípio do verbo pecar são palavras homônimas, ou seja, escritas e pronunciadas da mesma forma. Em Grego, isso não ocorre.

A palavra grega para “pecado” (ἁμαρτίαν), nesse verso, é um substantivo, o que torna imprópria a leitura dessa expressão como se fosse locução verbal. Sabendo disso, algumas versões de língua portuguesa se ocuparam de redigir o texto de tal forma que isso se tornasse evidente, como é o caso da Almeida Revista e Atualizada e da Nova Tradução na Linguagem de Hoje, que tornaram impossível a leitura de “pecado” como verbo.

A ideia expressa em 1 João 1:8 não é uma defesa da inevitabilidade do pecado e sim uma repreensão a quem alega não possuir pecados no histórico de sua vida, pois a Bíblia é clara em dizer que todos já pecaram (Rm 3:23). Poderia alguém questionar: “Por que, então, o verbo ter está no presente?”. Isso ocorre porque os pecados continuam no histórico do indivíduo, de modo que, se alguém disser que não tem (no presente) pecado em sua vida pregressa (passado), estará enganando a si mesmo.

Da história de sua vida, o homem precisa prestar contas, pois a Lei exige perfeição não somente no presente, mas também no passado. A Lei requer justiça perfeita durante toda a vida do indivíduo. Como todos já pecaram e, por isso, têm (presente) pecado no histórico de sua vida, a única saída que lhes resta é pleitear o perdão pelo passado e corrigir sua trajetória, vivendo em harmonia plena com a vontade de Deus no futuro, perdão como indicado no capítulo seguinte (I Jo 2:1). Para tanto, todos precisam do sangue de Cristo, pois somente isso pode limpar o registro de seus pecados passados (2 Pe 1:9).

A construção “ter pecado”, no sentido de uma ação praticada no passado que continua manchando o histórico da vida do homem no presente, aparece em outro momento nos escritos de João.

Considere-se o seguinte texto:

 

Respondeu Jesus: Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado; mas aquele que me entregou a ti maior PECADO TEM. (João 19:11)

 

Há outros exemplos que expressam a ideia de conduta de forma semelhante, mas não necessariamente expressos no mesmo tempo verbal (Jo 9:45, Jo 15:22 e Jo 15:24). (Obs.: Em todos esses casos, a construção é feita com o TER [verbo] + PECADO [substantivo] e não com locuções verbais).

O leitor atento notará que, nessas passagens bíblicas, assim como em I Jo 1:8, “temos pecado” está se referindo à conduta do homem e não à natureza pecaminosa dele. Tal ideia está em perfeita harmonia com o contexto (versos 5-10), com a forma verbal adotada em 1 João 1:10 e também com as afirmações peremptórias de 1 João 3:6 e 9; e 5:18.

Os versos 9 e 10 praticamente reproduzem, em linha geral, o pensamento externado nos versos 7 e 8, ao afirmarem que, se os indivíduos confessarem seus pecados, Deus os perdoará e os purificará e que, se alguém disser que nunca pecou (verbo grego no perfeito do indicativo: ação completada no passado), faz de Deus mentiroso, pois Este enviou Seu Filho para sofrer e morrer pelos pecados de toda a humanidade, o que significa que, na avaliação de Deus, esse que nega ter pecado também já pecou.

Faremos agora uma análise mais detida do tempo verbal usado em I Jo 1:10:

Se dissermos que não pecamos, fazemo-Lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.

Aqui poderia surgir uma dúvida. O verbo “pecar”, em Português, está no pretérito perfeito ou no presente do indicativo? Esse questionamento se justifica porque “pecamos” (verbo “pecar” no pretérito perfeito) e “pecamos” (verbo “pecar” no presente do indicativo) possuem a mesma grafia, o que configura mais um caso de homonímia.

Ocorre que, nessa passagem, o verbo grego traduzido por “pecamos” está em um tempo chamado “perfeito”. Sobre isso, a Gramática (Strong) diz:

 

O Perfeito grego corresponde ao Perfeito na língua portuguesa, e descreve uma ação que é vista como tendo sido completada no passado, uma vez por todas, não necessitando ser repetida.

 

Pode-se dizer também que esse tempo pode enfatizar um efeito presente decorrente de uma atitude completamente terminada no passado. Curiosamente, o estudioso de Grego bíblico Daniel B. Wallace, à página 577 de sua obra “Gramática Grega – Uma sintaxe Exegética do Novo Testamento”, parece colocar I Jo 1:10 em um desdobramento do tempo perfeito (perfeito extensivo) em que a ênfase, mais fortemente, está na ação terminada no passado. O que importa é a concordância entre os gramáticos de que o perfeito do indicativo exige uma ação completada exclusivamente no passado.

Para ilustrar o uso do tempo perfeito do Grego, podemos citar a famosa expressão “heureca!”, expressão atribuída a Arquimedes de Siracusa, que se trata do verbo heuriskéin no perfeito do indicativo do Grego para exprimir a ideia de “descobri”, “encontrei”. Trata-se, pois, de uma atitude completada no passado, tal como em I Jo 1:10.  

Voltando ao texto joanino, diante do perfeito paralelismo entre os versos 8 e 10, o sentido do primeiro pode ser esclarecido pelo segundo. É que, aprioristicamente, tomando apenas a forma verbal como parâmetro, realmente haveria dúvida quanto ao real sentido do verso 8. Poderia ser compreendido no sentido de que o cristão tem pecado no presente por estar em sua prática atual ou no sentido de que tem pecado por já tê-lo praticado em momento pretérito de sua vida. O verso 10 serve para sanar a dúvida, pois emprega o verbo no perfeito do indicativo, tempo que remete a uma ação totalmente completada no passado, mas com reflexos no presente.

Esse entendimento relativo ao texto de I Jo 1 é perfeitamente consonante com a arrumação morfológica de I Jo 3, como veremos a seguir.

Muitos argumentam que a tradução de I Jo 3:6 deve registrar todas as ocorrências do verbo pecar como: “vive” sucedido de pecar no gerúndio, pois, segundo eles, o verbo se encontra no presente do particípio. Isso porém, só é verdade quanto a este trecho: “todo aquele que vive pecando não o viu”, uma vez que, na primeira parte do verso, o verbo pecar está no presente do indicativo, o que não permite que se extraia daí a interpretação de que o sujeito da oração peque ocasionalmente. Não! O verso diz que aquele que permanece em Cristo “não peca”. O gerúndio até pode expressar a ideia que o presente do indicativo, no Grego, expressa, mas o problema está na locoção que empregaram para isso, pois “vive pecando” pode sugerir que a pessoa, na verdade, oscila entre a obediência e o pecado ocasionalmente, o contrário do que João está realmente dizendo. 

O mesmo raciocínio vale para o verso 9, pois o tempo verbal do verbo “cometer” (em “não comete pecado”) e do verbo “poder” (em “e não pode pecar”) também é o presente do indicativo. Tal como fez a versão ARC, pode-se traduzir o verso, então, da seguinte forma: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus.”

Para concluirmos essa análise, note-se que o verso 6 de 1 João 3 usa o presente do particípio (“todo aquele que peca não O viu” = “todo aquele que tem pecado não O viu”) e o verso 9 usa também o infinitivo (“e não pode pecar”), além do presente do indicativo. João usou, portanto, o verbo “pecar” no particípio, no indicativo e no infinitivo, para expressar praticamente a mesma ideia. O que podemos extrair disso?

Segue-se que João está realmente dizendo que quem é nascido de Deus não vai optar pelo pecado. Se não fosse assim, qual tempo verbal ele deveria ter usado para transmitir a ideia de que o nascido de Deus não peca? Se é sugerido que João não estava querendo dizer que é possível, a partir de certo momento, viver uma vida sem pecar, coloca-se uma mordaça no escritor inspirado, pois praticamente inexistem outras possibilidades verbais em Grego para expressar esse pensamento. Se essa conclusão é rejeitada sempre a priori, não importa quantas formas verbais João usasse, certamente haverá alguma desculpa para que a conclusão nunca seja aquela que ele queria transmitir. Parece que é isso que está acontecendo na leitura que muitos fazem do texto.

É dever de todo cristão batalhar e lutar para viver a experiência necessária e especial de 1 João 3:6 e 9; 5:18. Porém, se alguém pecar, não deve ficar desanimado, permitindo que a tristeza para a morte dele se apodere. Antes, deve confessar seu pecado a Deus e, confiando nos méritos de Cristo, receber Seu perdão. Se este se deixar guiar totalmente pelo Espírito Santo de Deus e Lhe entregar totalmente sua vontade, verá o cumprimento das promessas de Deus na condição explicitada em 1 João 3:6 e 9; e 5:18.

EXPLICANDO ROMANOS 7

 

Como toda parte da Bíblia, Romanos 7 é de muito valor para o estudo do cristão. Reconhecendo isso, colocaremos mais esse elemento dentro de nossa equação na tentativa de expor o motivo pelo qual esse capítulo não compromete a argumentação que temos sustentado desde o princípio.

Como o capítulo é extenso, focaremos nos trechos usados por Leandro Quadros para enfrentar nossa tese.

 

Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. (Romanos 7:14-17)

 

Não é novidade que esse texto dividiu exegetas por séculos, mas a maneira como Leandro Quadros o interpreta nos parece, especialmente, problemática por vários motivos.

Em primeiro lugar, Leandro Quadros diz que esse capítulo é uma das provas que atestam a variedade de definições de pecado nas Escrituras. Funciona mais ou menos assim: como, em Romanos 7, Paulo descreve o “pecado” com características pessoais, segue-se, na opinião de Leandro Quadros, que o sentido dado à palavra é diverso da definição dada em I Jo 3:4. Para Leandro Quadros, “o pecado que habita em mim” é um estado, natureza ou como que uma entidade que me controla, não a transgressão da Lei pela conduta.

Bem, acreditamos que esse não pode ser o caso, pois tal uso do vocábulo configura apenas uma prosopopeia, não sendo necessário se inferir que Paulo estivesse introduzindo ou se valendo de outro conceito de pecado. Essa figura de linguagem é usada para personificar uma realidade inanimada, que consiste em atribuir figurativamente características humanas a coisas ou situações. É o que Paulo faz, por exemplo, ao transformar a morte em uma inimiga e dialogar com ela em I Co 15: 26 e 55, e nem por isso dizemos que ele estava usando outra definição de morte.

Pregadores, frequentemente, fazem isso em um sermão. Basta prestar atenção quando alguém diz: “mentira tem perna curta!”, “o seu pecado está ficando mais forte que você!”, “corra mais rápido que seu pecado!” etc. Esses são exemplos de usos de uma prosopopeia com a palavra “pecado” e exemplos de pecados. Há vários outros nas Escrituras: Is 55.12; Sl 85.10,11; Sl 35.10; Jó 12.7; Gn 4.4.

Sendo esse uso algo comum entre os escritores, não nos surpreende o fato de Ellen White declarar o seguinte:

Quero que você pense na educação que deve ser dada no lar. Essa educação começa com os pais. Eles devem construir a casa segundo o padrão que Cristo lhes deu. Eles devem ensinar o que Cristo ensinou, abençoar o que Cristo abençoou e corrigir o que Cristo corrigiu. O pecado não é para habitar nos corpos mortais daqueles que se comprometeram, corpo e alma a Cristo. {Ms66-1905.11}

Ademais, a ideia de que Paulo estivesse tratando de pecado como transgressão da Lei encaixa-se perfeitamente no fraseado que ele usa, pois o apóstolo associa o não conhecimento da lei com a morte do pecado. Por esse entendimento, Paulo está dizendo que, diante da Lei de Deus, Sua vontade revelada, ele viu que muitas de suas obras eram más. Só assim viu que seu pecado (a transgressão) tomara vida, e que ele precisava fazer algo a respeito desse problema.

Paulo diz:

Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás.

Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado. (Romanos 7:7-8)

Não é à toa que Ellen White, frequentemente, associa a definição de I João 3:4 com Romanos 7.  Confira:

Quando os judeus rejeitaram a Cristo, rejeitaram o fundamento da sua fé. E, por outro lado, o mundo cristão de hoje, que afirma a fé em Cristo, mas rejeita a lei de Deus, está cometendo um erro similar ao dos judeus enganados. Os que professam se apegar a Cristo, centrando as suas esperanças nEle, enquanto desprezam a lei moral, e as profecias, não estão em posição mais segura do que eram os judeus incrédulos. Eles não podem compreensivamente chamar os pecadores ao arrependimento, porque são incapazes de explicar adequadamente do que eles estão a se arrepender. O pecador, ao ser exortados a abandonar seus pecados, tem o direito de perguntar: “o que é o pecado?”. Aqueles que respeitam a lei de Deus podem responder, pecado é a transgressão da lei. Em confirmação disso, o apóstolo Paulo diz:  não conheci o pecado senão pela lei. {ME1 229.1}

Em outro momento, fazendo alusão a Romanos 7, Ellen G. White declarou:

Na clara luz da Palavra de Deus, podemos ler, claramente, o significado do pecado. João declara que o pecado é “transgressão da lei”. Paulo nos diz que não conheceu o pecado senão pela lei; quando o mandamento chegou à sua consciência, ele viu o pecado em seu verdadeiro caráter, e então morreu para o pecado para viver para Cristo. {18 MR 134.5}

Considere o seguinte parágrafo homilético:

Pense em alguém que nunca tenha cometido um homicídio. Essa pessoa, consigo mesma, pensa que está sem falta nesse quesito. No entanto, ao se deparar com as Escrituras declarando que “todo aquele que odeia seu irmão é um homicida”, e ao lembrar que possui um irmão por quem nutre ódio, logo chega à triste conclusão de que ela é, sim, uma homicida. Assim, esse “novo pecado” passa a ser um inimigo, que, no início, ganha quase todas! Um adversário sagaz e quase insuperável, pois seu ódio foi alimentado por muito tempo. Toda vez que ela difamava seu irmão, via seu pecado como se risse de sua atitude. Qual seria a solução? Arrepender-se, pedir perdão e mortificar aquele pecado. Ela precisava amar seu irmão, pois, só assim, o seu pecado, isto é, a sua transgressão, cessaria e ela teria liberdade.  

É dessa forma que Paulo trata o pecado em Romanos 7. Não foi sem propósito que, no mesmo livro, lemos:

 

Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também não há transgressão. Romanos 4:15

 

Para Paulo, o assunto era claro. O pecado só é um problema jurídico, para o homem, quando este toma ciência da norma que o acusa. Antes de conhecer a vontade de Deus, o pecado está morto!

O apóstolo João também faz uso figurado semelhante da palavra “pecado” ao dizer em I Jo 3:5:

 

E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado.

 

Nós, que “temos pecado” (I Jo 1:8), pela Graça de Deus, podemos ter nossos pecados pecados “tirados” de nós. João não está lidando com o pecado como se ele fosse intrínseco ao homem. O pecado pode ser “tirado”, podemos não o ter mais.

Também é dito, no mesmo verso, que em Cristo mesmo “não há pecado”. Essa figura de linguagem não poderia se encaixar mais perfeitamente com o que estamos defendendo. Como João diz, o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado (I Jo 1:7), e, a partir daí, somos chamados a viver uma vida sem pecado. Ele tira nossos pecados! Repare que, para Ellen G. White, esse raciocínio que defendemos parecia ser correto, pois ao citar I Jo 3 ela acrescentou o seguinte comentário explicativo:

 

“Nele não há pecado” – nenhuma transgressão da lei. “Todo aquele que permanece nele não peca; Todo aquele que peca não O viu”- não O aceitou como Salvador pessoal– “nem o conheceu. Filhinhos, que nenhum homem vos engane; Aquele que faz a justiça é justo, assim como ele é justo. Aquele que cometeu pecado é do diabo; Pois o diabo peca desde o início. Para este propósito, o filho de Deus se manifestou, para destruir as obras do diabo.” {Lt76-1900.26}

 

A forma como lemos Romanos 7 não é sustentada apenas por nós, mas pelo próprio autor da lição da Escola Sabatina de 2010: “A Redenção aos Romanos”, lição que será repetida no trimestre que acaba de começar. Essa lição tão importante, pautada na obra de Don Neufeld, no estudo de número 8, “O homem de Romanos 7”, à página 98, declara:

 

“Infelizmente, deixando de renovar diariamente sua dedicação a Cristo, muitos cristãos, na realidade, estão servindo ao pecado, por mais que abominem admitir isso. Racionalizam que estão passando pela experiência normal de santificação e que simplesmente ainda têm um longo caminho a percorrer. Assim, em vez de levar os pecados conhecidos a Cristo e pedir a vitória sobre eles, escondem-se atrás de Romanos 7, que lhes diz, pensam eles, que é impossível fazer o que é certo. Na realidade, esse capítulo está dizendo que é impossível fazer o certo quando a pessoa está escravizada ao pecado, mas a vitória é possível em Jesus Cristo.”

 

Estamos de acordo com a leitura feita pelo autor e sugerimos que se verifique a lição da semana anterior a essa: “Vitória sobre o pecado”.

Apesar de que Paulo estivesse tratando, prioritariamente, sobre o tema das alianças, intenção registrada logo no primeiro verso do capítulo, acreditamos que Romanos 7 possui aplicação à conversão humana também. Na história de Israel, ao se depararem os hebreus com os pecados que a legislação mosaica lhes apontava, não poderiam ser vitoriosos apenas se valendo da letra da lei. Necessária era uma mudança completa de caráter, gostos e práticas, o que só seria possível mediante o auxílio divino.

Semelhantemente, o mesmo se deu com Paulo e, analogicamente, é o que se dá conosco. O homem pode ser conhecedor da vontade de Deus e sentir grande atração pela Verdade, mas necessário é que experimente uma conversão genuína para se ver livre do mal. Isso não descarta a necessidade de lutar contra o pecado, para não cair nele novamente. Sua batalha, realmente, durará a vida toda, mas ele possui a promessa de que será vitorioso.

Na busca de um comentário mais técnico sobre o texto, reproduzimos parte das considerações de Wallace acerca das limitações do texto e de seu mais provável sentido. Concordamos com a visão por ele exposta tendo em mente o que já foi dito antes no presente artigo. Suas considerações constam de seu livro “Gramática Grega -Uma sintaxe Exegética do Novo Testamento”, à página 391-392:

Em raras ocasiões, a primeira pessoa do singular pode ser usada para dá um toque de vividez a uma aplicação universal. Normalmente, um uso assim é inclusivo da primeira pessoa (assim, o “Eu” significaria algo como “todos nós”), mas, aparentemente, também pode ser de um modo exclusivo (o “Eu” tem o sentido de “outros, não eu mesmo”).

1 Co 10:30 […] Se eu participo com ações de graças, por que hei de ser vituperado por aquilo por que eu dou graças? No contexto anterior, Paulo dirigiu-se aos coríntios na segunda pessoa (note a situação hipotética descrita em vv. 27-29). Ele muda para primeira pessoa do singular em vv. 29-30, então volta para a segunda do plural em v. 30. Ele parece relacionar-se como o irmão mais forte pelo uso da primeira pessoa.

G12:18 […] Porque, se eu torno a edificar aquilo que eu destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor. Neste contexto Paulo parece se associar com a situação que os gálatas estavam encarando, não em termos de simpatia, mas julgamento. A primeira pessoa funciona como um artifício estilístico-literário de condenar as ações dos leitores.

O uso da primeira pessoa do singular em Rm 7:7-25 parece encaixar-se muito bem aqui. A questão, então, é muito complexa e não se resolve gramaticalmente. Basta dizer que (1) Rm 7:7-25 é uma passagem extraordinariamente difícil para exegese. Nenhuma das visões padronizadas pode vindicar todos os pontos normais ou sintaxe rotineira; (2) se o “eu” dos vv. 7-13 é o mesmo “eu” dos vv. 14-25, é quase certamente usado em sentido universal, pois o v. 9 (“eu nalgum tempo vivia alheio ao pecado”), dificilmente, refere-se ao Paulo pré-conversão, enquanto o v. 14 (“Eu sou carnal, vendido ao pecado”) não parece uma descrição do Paulo pós-conversão. Uma noção universal focalizaria a incapacidade humana (seja crentes ou descrentes) de agradar a Deus pela sujeição à lei. Assim, embora o uso da primeira pessoa em um sentido universal seja bastante raro, é a única interpretação consistente do “eu”.

[Obs.: na citação acima, não transcrevemos os vários textos em que apareciam redigidos, em alfabeto grego, os exemplos bíblicos do autor. Julgamos ter sido necessário colocar apenas os textos em Português.]

 

TEXTOS SOBRE “TRANSGRESSÃO DA LEI” MENOS CONHECIDOS

 

Queremos introduzir no debate pelo menos 3 textos, pouco conhecidos, que mostram como Ellen White, seguidas vezes, reforçou sua visão sobre hamartiologia. Dizer que ela tinha uma visão plural da definição de pecado é distorcer gravemente seus ensinos. Esperamos que esta modesta compilação possa ajudar o leitor a pesar as evidências.

 

O ÚNICO TESTEMUNHO

 

Não há alma aqui que possa dar ao luxo de pecar. E o que é pecado? O único testemunho na Bíblia é que [pecado] é a transgressão da lei. E Deus nos concedeu esta preciosa provação para que possamos ter a oportunidade de retornar à nossa fidelidade a Deus. {Ms12-1895.19}

 

DEVER DE EXPLICAR O  ENTENDIMENTO INTELIGENTE DE PECADO

 

Como os que ministram em palavras e doutrinas pedem ao pecador que se arrependa de seus pecados sem que lhes tenha explicado ou definido o que é pecado? O pecado é a transgressão da lei. O pecador pode muito bem perguntar: “Senhor, diga-me, se puder, de que pecado eu sou chamado a me arrepender?” Devemos saber do que devemos nos arrepender. Se não existe um padrão moral que defina o pecado e que possamos apresentar ao pecador, ele ficará no escuro até um conhecimento inteligente do que é o pecado. {Lt16-1892.10}

 

PALAVRAS DE CRISTO SOBRE O QUE É PECADO

 

Para todos que envolvem coração e alma neste trabalho, Cristo diz: “Estou com você neste trabalho para orientar, confortar, santificar e sustentar você. Eu o tornarei bem sucedido ao despertar a atenção dos homens para um propósito. Seu sucesso será do Senhor em convencer os homens do que se constitui o pecado, para que creiam em Mim e saibam que todo pecado é transgressão da lei de Deus. Seu trabalho é pregar, ensinando-os a observar todas as coisas que eu lhe ordenei “.{Lt90-1900.13}

 

Novamente: “TO-DO PE-CA-DO é transgressão da lei de Deus.”

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Desde que começamos a produzir esta resposta, Leandro Quadros publicou vários materiais sobre hamartiologia, perfeição, “perfeccionismo” e temas correlatos. Não tivemos condição de responder a tudo o que ele vem publicando, mas é certo que este texto será suficiente para desmontar muitos dos principais argumentos usados em sua retórica na vacinação contra o temido “perfeccionismo”. Caso o professor Leandro Quadros esteja lendo este comentário, queremos listar algumas coisas que nós NÃO DEFENDEMOS ao sustentar nossa posição.

 

  1. Não defendemos que nossas obras nos dão mérito para que Deus nos perdoe de nossos pecados;
  2. Não acreditamos que o homem não dependa da Graça de Deus para sua salvação;
  3. Não defendemos a doutrina do movimento “Carne Santa”, nada temos a ver com as pretensões deles;
  4. Não acreditamos que haverá um momento em que nosso aperfeiçoamento cesse, pois mesmo no Céu continuaremos a atingir novas esferas de conhecimentos e melhoramentos;
  5. Não acreditamos que o estudo dos Escritos de Ellen G. White substituam o estudo da Bíblia;
  6. E, por fim, não acreditamos que sustentar a crença na vitória completa sobre o pecado, antes da volta de Jesus, torne-nos infelizes. Devemos focar nas promessas.

Defender a perfeição cristã, conforme acreditamos, em nada depende dos itens dessa lista.

Por fim, esperamos que Leandro Quadros mantenha o debate na mesma seriedade com que nós estamos mantendo. Esperamos que ele pare de emitir julgamentos sobre nossa conduta e comente nossos argumentos e provas. É bom que não fuja dos textos para não dar a entender que está exercendo seu direito de jus sperniandi.

 

Fraternalmente,

 

Coolturaadventista.com

 

Links:

Vídeo 1 [Vídeo sobre a questão do transporte público aos sábados]: 

Nosso primeito texto: Resposta a Leandro Quadros sobre o sétimo mandamento

Vídeo 2 [Vídeo em que Leandro Quadros nos responde]: 

  • Paulo Ferreira

    Por favor me informem se vcs entraram em contato com o Leandro Quadros antes da publicação acima? Quem ganha com o debate público? Será que o diabo gosta? Vou escrever também para o Leandro fazendo as mesmas perguntas.

  • Paulo Ferreira

    Querido irmão Fughita. Concordo em parte com a sua argumentação. Discordo do seu conceito do que é pecado. Tenta agora desconstruir as palestras dos pastores Wilson Paroschi e Amim Rodor, sobre o mesmo assunto (PERFECCIONISMO / PERFEIÇÃO ). Por favor me escreva. Não há necessidade de tornar público aquilo que as vezes pensamos ser certo. Meu e-mail : psfneruda@yahoo.com.br