O homem de Romanos 7

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Como toda parte da Bíblia, Romanos 7 é de muito valor para o estudo do cristão. Reconhecendo isso, formulamos um pequeno estudo sobre este capítulo para auxiliar na compreensão correta do mesmo.

 

Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. (Romanos 7:14-17)

 

Não é novidade que esse texto dividiu exegetas por séculos, mas a maneira como muitos o interpretam nos parece, especialmente, problemática por vários motivos.

Em primeiro lugar, alguns teólogos e estudantes leigos defendem que esse capítulo é uma das provas que atestam a variedade de definições de pecado nas Escrituras. Funciona mais ou menos assim: como, em Romanos 7, Paulo descreve o “pecado” com características pessoais, segue-se, na opinião deles, que o sentido dado à palavra é diverso da definição dada em I Jo 3:4 (Pecado é transgressão da Lei). Para muitos, “o pecado que habita em mim” é um estado, natureza ou como que uma entidade que me controla, não a transgressão da Lei pela conduta.

Bem, acreditamos que esse não pode ser o caso, pois tal uso do vocábulo configura apenas uma prosopopeia, não sendo necessário se inferir que Paulo estivesse introduzindo ou se valendo de outro conceito de pecado. Essa figura de linguagem é usada para personificar uma realidade inanimada, que consiste em atribuir figurativamente características humanas a coisas ou situações. É o que Paulo faz, por exemplo, ao transformar a morte em uma inimiga e dialogar com ela em I Co 15: 26 e 55, e nem por isso dizemos que ele estava usando outra definição de morte.

Pregadores, frequentemente, fazem isso em um sermão. Basta prestar atenção quando alguém diz: “mentira tem perna curta!”, “o seu pecado está ficando mais forte que você!”, “corra mais rápido que seu pecado!” etc. Esses são exemplos de usos de uma prosopopeia com a palavra “pecado” e exemplos de pecados. Há vários outros nas Escrituras: Is 55.12; Sl 85.10,11; Sl 35.10; Jó 12.7; Gn 4.4.

Sendo esse uso algo comum entre os escritores, não nos surpreende o fato de Ellen White declarar o seguinte:

Quero que você pense na educação que deve ser dada no lar. Essa educação começa com os pais. Eles devem construir a casa segundo o padrão que Cristo lhes deu. Eles devem ensinar o que Cristo ensinou, abençoar o que Cristo abençoou e corrigir o que Cristo corrigiu. O pecado não é para habitar nos corpos mortais daqueles que se comprometeram, corpo e alma a Cristo. {Ms66-1905.11}

Ademais, a ideia de que Paulo estivesse tratando de pecado como transgressão da Lei encaixa-se perfeitamente no fraseado que ele usa, pois o apóstolo associa o não conhecimento da lei com a morte do pecado. Por esse entendimento, Paulo está dizendo que, diante da Lei de Deus, Sua vontade revelada, ele viu que muitas de suas obras eram más. Só assim viu que seu pecado (a transgressão) tomara vida, e que ele precisava fazer algo a respeito desse problema.

Paulo diz:

Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás.

Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado. (Romanos 7:7-8)

Não é à toa que Ellen White, frequentemente, associa a definição de I João 3:4 com Romanos 7.  Confira:

Quando os judeus rejeitaram a Cristo, rejeitaram o fundamento da sua fé. E, por outro lado, o mundo cristão de hoje, que afirma a fé em Cristo, mas rejeita a lei de Deus, está cometendo um erro similar ao dos judeus enganados. Os que professam se apegar a Cristo, centrando as suas esperanças nEle, enquanto desprezam a lei moral, e as profecias, não estão em posição mais segura do que eram os judeus incrédulos. Eles não podem compreensivamente chamar os pecadores ao arrependimento, porque são incapazes de explicar adequadamente do que eles estão a se arrepender. O pecador, ao ser exortados a abandonar seus pecados, tem o direito de perguntar: “o que é o pecado?”. Aqueles que respeitam a lei de Deus podem responder, pecado é a transgressão da leiEm confirmação disso, o apóstolo Paulo diz:  não conheci o pecado senão pela lei. {ME1 229.1}

Em outro momento, fazendo alusão a Romanos 7, Ellen G. White declarou:

Na clara luz da Palavra de Deus, podemos ler, claramente, o significado do pecado. João declara que o pecado é “transgressão da lei”. Paulo nos diz que não conheceu o pecado senão pela lei; quando o mandamento chegou à sua consciência, ele viu o pecado em seu verdadeiro caráter, e então morreu para o pecado para viver para Cristo. {18 MR 134.5}

Considere o seguinte parágrafo homilético:

Pense em alguém que nunca tenha cometido um homicídio. Essa pessoa, consigo mesma, pensa que está sem falta nesse quesito. No entanto, ao se deparar com as Escrituras declarando que “todo aquele que odeia seu irmão é um homicida”, e ao lembrar que possui um irmão por quem nutre ódio, logo chega à triste conclusão de que ela é, sim, uma homicida. Assim, esse “novo pecado” passa a ser um inimigo, que, no início, ganha quase todas! Um adversário sagaz e quase insuperável, pois seu ódio foi alimentado por muito tempo. Toda vez que ela difamava seu irmão, via seu pecado como se risse de sua atitude. Qual seria a solução? Arrepender-se, pedir perdão e mortificar aquele pecado. Ela precisava amar seu irmão, pois, só assim, o seu pecado, isto é, a sua transgressão, cessaria e ela teria liberdade.

É dessa forma que Paulo trata o pecado em Romanos 7. Não foi sem propósito que, no mesmo livro, lemos:

 

Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também não há transgressão. Romanos 4:15

 

Para Paulo, o assunto era claro. O pecado só é um problema jurídico, para o homem, quando este toma ciência da norma que o acusa. Antes de conhecer a vontade de Deus, o pecado está morto!

O apóstolo João também faz uso figurado semelhante da palavra “pecado” ao dizer em I Jo 3:5:

 

E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado.

 

Nós, que “temos pecado” (I Jo 1:8), pela Graça de Deus, podemos ter nossos pecados pecados “tirados” de nós. João não está lidando com o pecado como se ele fosse intrínseco ao homem. O pecado pode ser “tirado”, podemos não o ter mais.

Também é dito, no mesmo verso, que em Cristo mesmo “não há pecado”. Essa figura de linguagem não poderia se encaixar mais perfeitamente com o que estamos defendendo. Como João diz, o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado (I Jo 1:7), e, a partir daí, somos chamados a viver uma vida sem pecado. Ele tira nossos pecados! Repare que, para Ellen G. White, esse raciocínio que defendemos parecia ser correto, pois ao citar I Jo 3 ela acrescentou o seguinte comentário explicativo:

 

“Nele não há pecado” – nenhuma transgressão da lei. “Todo aquele que permanece nele não peca; Todo aquele que peca não O viu”- não O aceitou como Salvador pessoal– “nem o conheceu. Filhinhos, que nenhum homem vos engane; Aquele que faz a justiça é justo, assim como ele é justo. Aquele que cometeu pecado é do diabo; Pois o diabo peca desde o início. Para este propósito, o filho de Deus se manifestou, para destruir as obras do diabo.” {Lt76-1900.26}

 

A forma como lemos Romanos 7 não é sustentada apenas por nós, mas pelo próprio autor da lição da Escola Sabatina deste trimestre: “Salvação pela fé somente: o livro de Romanos”. Essa lição tão importante, pautada na obra de Don Neufeld, no estudo de número 8, “O homem de Romanos 7”, na quarta-feira, declara:

 

“Infelizmente, deixando de renovar diariamente sua dedicação a Cristo, muitos cristãos, na realidade, estão servindo ao pecado, por mais que abominem admitir isso. Racionalizam que estão passando pela experiência normal de santificação e que simplesmente ainda têm um longo caminho a percorrer. Assim, em vez de levar os pecados conhecidos a Cristo e pedir a vitória sobre eles, escondem-se atrás de Romanos 7, que lhes diz, pensam eles, que é impossível fazer o que é certo. Na realidade, esse capítulo está dizendo que é impossível fazer o certo quando a pessoa está escravizada ao pecado, mas a vitória é possível em Jesus Cristo.”

 

Estamos de acordo com a leitura feita pelo autor e sugerimos que se verifique a lição da semana anterior a essa: “Vitória sobre o pecado”.

Apesar de que Paulo estivesse tratando, prioritariamente, sobre o tema das alianças, intenção registrada logo no primeiro verso do capítulo, acreditamos que Romanos 7 possui aplicação à conversão humana também. Na história de Israel, ao se depararem os hebreus com os pecados que a legislação mosaica lhes apontava, não poderiam ser vitoriosos apenas se valendo da letra da lei. Necessária era uma mudança completa de caráter, gostos e práticas, o que só seria possível mediante o auxílio divino.

Semelhantemente, o mesmo se deu com Paulo e, analogicamente, é o que se dá conosco. O homem pode ser conhecedor da vontade de Deus e sentir grande atração pela Verdade, mas necessário é que experimente uma conversão genuína para se ver livre do mal. Isso não descarta a necessidade de lutar contra o pecado, para não cair nele novamente. Sua batalha, realmente, durará a vida toda, mas ele possui a promessa de que será vitorioso.

Na busca de um comentário mais técnico sobre o texto, reproduzimos parte das considerações de Wallace acerca das limitações do texto e de seu mais provável sentido. Concordamos com a visão por ele exposta tendo em mente o que já foi dito antes no presente artigo. Suas considerações constam de seu livro “Gramática Grega -Uma sintaxe Exegética do Novo Testamento”, à página 391-392:

Em raras ocasiões, a primeira pessoa do singular pode ser usada para dá um toque de vividez a uma aplicação universal. Normalmente, um uso assim é inclusivo da primeira pessoa (assim, o “Eu” significaria algo como “todos nós”), mas, aparentemente, também pode ser de um modo exclusivo (o “Eu” tem o sentido de “outros, não eu mesmo”).

1 Co 10:30 […] Se eu participo com ações de graças, por que hei de ser vituperado por aquilo por que eu dou graças? No contexto anterior, Paulo dirigiu-se aos coríntios na segunda pessoa (note a situação hipotética descrita em vv. 27-29). Ele muda para primeira pessoa do singular em vv. 29-30, então volta para a segunda do plural em v. 30. Ele parece relacionar-se como o irmão mais forte pelo uso da primeira pessoa.

G12:18 […] Porque, se eu torno a edificar aquilo que eu destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor. Neste contexto Paulo parece se associar com a situação que os gálatas estavam encarando, não em termos de simpatia, mas julgamento. A primeira pessoa funciona como um artifício estilístico-literário de condenar as ações dos leitores.

O uso da primeira pessoa do singular em Rm 7:7-25 parece encaixar-se muito bem aqui. A questão, então, é muito complexa e não se resolve gramaticalmente. Basta dizer que (1) Rm 7:7-25 é uma passagem extraordinariamente difícil para exegese. Nenhuma das visões padronizadas pode vindicar todos os pontos normais ou sintaxe rotineira; (2) se o “eu” dos vv. 7-13 é o mesmo “eu” dos vv. 14-25, é quase certamente usado em sentido universal, pois o v. 9 (“eu nalgum tempo vivia alheio ao pecado”), dificilmente, refere-se ao Paulo pré-conversão, enquanto o v. 14 (“Eu sou carnal, vendido ao pecado”) não parece uma descrição do Paulo pós-conversão. Uma noção universal focalizaria a incapacidade humana (seja crentes ou descrentes) de agradar a Deus pela sujeição à lei. Assim, embora o uso da primeira pessoa em um sentido universal seja bastante raro, é a única interpretação consistente do “eu”.

[Obs.: na citação acima, não transcrevemos os vários textos em que apareciam redigidos, em alfabeto grego, os exemplos bíblicos do autor. Julgamos ter sido necessário colocar apenas os textos em Português.]

Para auxiliar e aprofundar ainda mais o estudo desse capítulo, nossa equipe elaborou um vídeo que nos ajudará a elucidar o polêmico e complexo dilema: Quem é o homem de Romanos 7?